A chuva caía constante, molhando o caixão preto onde o corpo de Fred estava. No cemitério vazio, Benjamim observava o caixão descer a cova. Sentiu a mão de Antonela agarrar seu braço. As gotas de chuva impossibilitavam-na de ver as lagrimas sendo derramadas. Ela repousou o guarda-chuva sobre sua cabeça, enquanto ele permanecia paralisado com a cena diante dos seus olhos.
Dominique, Carmélia, Henrico, pessoas com as quais Fred pouco teve contato ou quase nenhum, estavam presentes lamentando sua morte como se o conhecesse há muito tempo. Ele não tinha mais família, não havia ninguém além de Benjamim para chorar por ele.
Agora ele voltava para encontrar sua mãe. Ele finalmente descansava da vida tão difícil na qual vivera. Lamentavelmente, cedo demais.
Quando finalmente Fred foi enterrado, Antonela se colocou em frente ao Benjamim e, olhando nos olhos dele, o abraçou, sem se importar com as roupas dele molhadas pela chuva. Ela apenas desejou reconfortá-lo.
— Sinto muito – ela disse, recostando a cabeça sobre o peito dele e ouvindo as batidas frenéticas do seu coração.
Ela nunca havia reparado o quanto ele era alto e forte, ou talvez tivesse, mas não tão perto, o sentindo como se fosse parte dela. Sentiu Benjamim tocar seus cabelos e a abraçar de volta.
— Eu também sinto – a voz dele estava embargada, carregada de emoção – mas você continua aqui, e isso me consola.
Ela continuou agarrada nele, agora um pouco mais à vontade. Foi incapaz de olhar em seus olhos enquanto o ouvia dizer aquilo. As coisas começavam a se acalmar entre eles e aquilo era um bom sinal. Ela soltou um suspiro pesado enquanto fechou os olhos. Quando os abriu, viu o advogado de Benjamim se aproximando, com um semblante pesado no rosto, enquanto era lavado pela chuva constante.
Ela se afastou repentinamente como se tivesse levado um choque. Lembrou-se da audiência, que deveria estar em frente ao juiz naquela manhã. Com os últimos acontecimentos, Antonela havia esquecido.
Ela não podia ter esquecido. A expressão no rosto dela era de alarme. Ela observava o advogado se aproximando cada vez mais, enquanto seu coração se afundava no peito. A presença dele só indicava uma coisa: notícias ruins viriam em seguida.
Benjamim demorou a entender o que estava acontecendo e, porque Antonela parecia petrificada diante dele. Quando desviou o olhar, o advogado já estava parado à frente deles.
— Sinto muito não ter comparecido ao funeral – ele disse ofegante, enxugando o rosto molhado – a ausência da senhorita Bianchi na audiência de hoje fez o juiz antecipar sua decisão.
Os olhos de Antonela lacrimejaram e ela sentiu como se facas estivessem sendo colocadas em seu corpo. Mal viu Benjamim a fuzilar com o olhar, assustado.
— Por que você não disse que a audiência era hoje? – Benjamim indagou.
A impressão que Antonela tinha era de que a voz dele vinha de muito longe. Desviou o olhar para o dele quando uma lagrima escorreu pelos seus olhos.
— Eu não sei – ela gaguejou, enquanto o desespero ia dominando seu coração – eu jamais faltaria à audiência se tivesse me lembrado.
Benjamim fechou os olhos e compreendeu imediatamente que os últimos acontecimentos fariam qualquer um esquecer até mesmo o próprio nome. Antonela havia levado uma pancada na cabeça, era improvável que isso tenha afetado sua memória, mas os sentimentos posteriores aos fatos poderiam ter bloqueado o que ela precisava se lembrar.
Depois de alguns segundos pensando sobre aquilo e sendo consumida pela culpa, ela limpou finalmente o rosto, olhou para o advogado e perguntou com a voz arrastada, temendo ouvir a resposta.
— Que decisão o juiz tomou?
Benjamim se aproximou de Antonela novamente, mas ela foi incapaz de olhar nos olhos dele. Sentimentos distintos afloravam em seu coração. Ele estava pronto para consolá-la, mas ela foi mais rápida e, com a cabeça baixa, caminhou para longe deles.
Seus passos se tornaram mais rápidos, mal percebeu estar quase correndo debaixo da chuva. Só parou quando percebeu estar do lado de fora do cemitério. Ouviu Benjamim gritar seu nome algumas vezes, mas ela não voltaria para falar com ele.
Cenas posteriores rondaram sua mente. Ela foi obrigada a voltar àquela cidade. Foi obrigada a contar a Benjamim sobre a existência de Adam para salvar a vida do filho. E agora estava sendo obrigada a renunciar ao próprio filho. Era como se sua vida nunca estivesse sob seu controle.
Avistou o carro de Dominique, o velho Chevette ainda parado no estacionamento vazio. Correu até lá para não dar nenhuma chance de Benjamim a alcançá-la. Ela não sabia o que estava sentindo por ele naquele momento. Ela não suportaria ouvi-lo dizer que sentia muito, enquanto arrancava seu filho de seus braços.
Dominique se assustou quando ela entrou no carro de repente, com o rosto vermelho e cheio de lágrimas.
— O que aconteceu? – Ela tinha os olhos arregalados de surpresa – achei que o Benjamim iria levá-la para casa.
— Por favor, Dominique – disse, quando as palavras morreram em sua garganta – preciso ver o Adam pela última vez.
— O quê? – Dominique se assustou com a declaração dela.
— O juiz deu a guarda dele para o Benjamim – outra lagrima escorreu pelo seu rosto – estão arrancando meu filho de mim.

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