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O Herdeiro Bilionário e a Noiva Substituta romance Capítulo 2

“Amar é oferecer o coração mesmo sabendo que ele pode sangrar.”

Clara Vasconcelos

O silêncio da igreja era tão denso que eu conseguia ouvir o próprio coração batendo dentro do peito, cada pulsar ecoava como um tambor. Do lado de fora das portas altas e esculpidas em madeira maciça, os primeiros acordes da marcha nupcial começaram a tocar, suaves no início, crescendo a cada segundo, anunciando o momento que mudaria para sempre o destino de duas famílias… e o meu.

O ar cheirava a flores frescas e cera de vela, mas para mim tudo parecia distante, borrado, como se o mundo tivesse mergulhado debaixo d’água. O peso do vestido, o perfume adocicado das rosas, os passos apressados dos organizadores atrás de mim… nada fazia sentido.

Eu sentia as mãos suarem dentro das luvas de seda, o véu leve preso com grampos na cabeça, o coque impecável tensionando cada fio dos meus cabelos negros. O buquê de lírios brancos tremia nos dedos. Por baixo do tule, meus olhos verdes marejados fixavam-se nas portas fechadas à minha frente, como se buscassem uma última saída… que não existia mais.

De repente, senti o braço firme do meu pai sob a minha mão tremer discretamente. William Vasconcelos, um homem conhecido por sua postura inabalável, virou o rosto para me encarar, com a expressão carregada de surpresa e confusão. Ele franziu a testa e contraiu o maxilar encarando-me com os olhos cinzentos cheios de perguntas.

— Clara o que…

Antes que ele pudesse continuar, Amanda surgiu ao lado de nós, impecável no vestido azul-petróleo, e encarou o marido com o olhar firme e retrucou com a voz afiada.

— Não diga nada, William. — Ela ergueu o queixo, altiva. — Foi uma decisão de nossa filha. Depois conversamos.

— Uma decisão?! — William ergueu a voz num sussurro rouco, tentando manter a compostura diante dos fotógrafos e convidados posicionados do lado de fora. — Amanda, isso é uma loucura! Ela não é a Isadora! Isso… isso não está certo!

Apertei o braço do meu pai com mais força, meus dedos frágeis e trêmulos pressionaram o tecido do paletó dele, obrigando-o a olhar para mim. Minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, mas carregada de súplica:

— Papai… está tudo bem.

William piscou, surpreso com a calma aparente. Seus olhos buscaram os meus, tentando encontrar em mim alguma convicção, alguma certeza, mas tudo o que viu foi um medo contido e uma força silenciosa que ele não compreendia. Para ele eu estar ali, usando o vestido da minha irmã, alguma besteira Isadora tinha feito.

— Clara minha filha, isso não…

— Papai, por favor…

Olhei no fundo dos olhos do meu pai e sorri. William sentiu o coração sangrar, ele sempre soube do meu amor por Lucca e devia imaginar a dor que estaria sendo para mim ter que mentir para proteger a Isadora. Levei a mão até o rosto dele tocando o local com ternura e disse:

— Vai dar tudo certo, papai.

Amanda, que estava ao lado, apenas assentiu, pressionando os lábios com firmeza, como quem decretava que não havia mais espaço para recuar. E então… o som dos violinos cresceu e a marcha nupcial inundou o ar.

Meu coração disparou dentro do peito, comprimindo o ar nos pulmões. Os organizadores correram, as damas de honra ajeitaram o véu e a cauda do vestido. Um sussurro percorreu o interior da igreja quando as portas altas finalmente se abriram.

E, naquele instante, eu entrei ao lado do meu pai.

O corredor parecia infinito. O chão de carpete de veludo creme absorvia o som dos passos, mas o eco surdo do meu coração preenchia o silêncio. O vestido era feito de um cetim francês, moldando cada curva do meu corpo com uma precisão cruel, como se quisesse lembrar-me, a cada respiração, que eu estava presa. A saia longa caía em camadas delicadas, pesadas de significado e destino, arrastando-se sobre o carpete de veludo creme que conduzia até o altar. A renda que adornava o corpete, fina e meticulosamente bordada, mordia-me a pele com pequenas agulhas invisíveis.

Conhecia os detalhes que me diferenciavam de Isadora, mesmo que todos os outros não percebessem. O jeito como eu mordia o lábio inferior. O modo como os dedos tremiam quando segurava o buquê. O passo mais hesitante, o olhar mais tímido.

“Ele sabia que eu não era Isadora.”

E, no entanto, não disse nada. Não moveu um músculo sequer. Apenas olhou-me, deixando que o peso do silêncio caísse sobre mim como uma sentença não declarada.

Fechei os olhos por um instante.

“Por que tem que ser assim?

Isadora sempre teve tudo primeiro, o nome ao lado dele, o destino traçado, a promessa que nunca foi minha. E, ainda assim, ali estava eu, vestida de branco, prestes a me casar com o único homem que fazia o meu coração bater forte demais, rápido demais… dolorosamente demais.

E então, diante do peso dos olhares, dos contratos, das expectativas e do próprio desejo sufocado, eu dei mais um passo. Não por escolha, mas por dever, por medo, por amor.

Porque, apesar de tudo… apesar da dor, da farsa, da traição da irmã, da culpa e do medo… eu o amava. Mesmo sabendo que ele nunca foi feito para mim. Mesmo sabendo que, no coração dele, não existia lugar para ninguém. Mesmo sabendo que eu estava vivendo um destino que nunca foi meu mas que, no fundo, sempre desejei.

O altar estava próximo e o futuro era incerto.

E, entre o dever e o desejo, eu sabia que não havia mais volta.

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