“Há dores que só existem porque o amor foi maior do que o medo.”
Clara Vasconcelos
O céu tingia os jardins da Mansão Ferraro com tons de âmbar e lilás, como se o próprio entardecer tivesse sido pintado para encenar um espetáculo perfeito, só que eu não fazia parte dele. Do meu lugar, tudo parecia uma encenação grandiosa demais para caber na minha pele. Pequenas luzes douradas pendiam das tendas de linho branco, piscando suavemente, balançando a cada sopro de vento. Pétalas brancas foram espalhadas sobre o chão em trilhas impecáveis, conduzindo os convidados até mesas suntuosas, rodeadas por arranjos altos de flores creme e verde-oliva. O quarteto de cordas tocava uma valsa antiga, e as notas suaves flutuavam no ar como promessas de um futuro que nunca me pertenceu.
Mas, para mim, nada daquilo era real.
Tudo era uma farsa. Uma mentira bem bordada, costurada com fios de vergonha, medo e desespero.
Meu vestido, ou melhor, o vestido de Isadora, parecia sufocar-me. O espartilho apertava-me tanto que cada respiração vinha curta, dolorida. A renda delicada, escolhida para abraçar o corpo perfeito da minha irmã, arranhava a minha pele como se rejeitasse a impostora. As alças escorregavam dos meus ombros e o cetim pesado prendia-me, como se gritasse silenciosamente:
“isso não é seu, nunca foi, nunca será.”
E era verdade.
Aquela festa não era minha, nem aquele papel e, principalmente… Lucca Ferraro não era meu.
Pelo menos, não para o mundo.
Para todos aqueles olhares atentos, calculistas e ávidos por fofocas, era Isadora Vasconcelos quem havia subido ao altar, quem agora ostentava o sobrenome Ferraro. A herdeira mais deslumbrante, a tempestade que sempre atraiu todos os olhares, a mulher que todos esperavam ver ao lado dele. Eles olhavam para mim e viam ela, e essa era a essência cruel da farsa.
O pior é que sempre foi assim. Desde crianças, Isadora era o centro gravitacional que puxava tudo ao seu redor, enquanto eu… eu era apenas a sua sombra. O mesmo rosto, os mesmos olhos, o mesmo sangue, mas nunca a mesma luz. Enquanto minha irmã era tempestade, eu era brisa. Enquanto ela incendiava os ambientes, eu passava despercebida, quase transparente.
E, ainda assim, lá estava eu.
No altar, no lugar dela. Carregando o peso de um sobrenome que não era meu, um destino que não me pertence.
A troca havia sido rápida. Tão rápida que até agora, horas depois, ainda parecia um borrão. Isadora desapareceu, fugiu horas antes da cerimônia, deixando para trás escândalo, caos e um rastro de vergonha. Não houve tempo para pensar, não houve espaço para decidir. Fui empurrada para dentro do vestido, para dentro da igreja, para dentro de uma vida que não escolhi.
E por quê?
Porque havia contratos. Porque havia ações. Porque havia milhões envolvidos. Porque a reputação dos Vasconcelos dependia disso. Porque eu precisava salvar o nome da minha família, mesmo que isso custasse a minha liberdade.
Mas… ele sabia.
Desde o primeiro instante. Desde o momento em que atravessei o corredor da igreja, senti o peso incandescente do olhar de Lucca sobre mim. Ele não olhava como os outros. Não havia admiração nem ternura em seus olhos. O que havia ali era algo muito mais perigoso: desconfiança.

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