“Quem ama de verdade entende que, às vezes, perder a si mesmo é a única forma de salvar o outro.”
Clara Vasconcelos
O som da marcha nupcial ainda ecoava, vibrando nas paredes altas da igreja, mas para mim parecia vir de um lugar distante, abafado, como se tudo estivesse acontecendo sob a água. Cada passo que dei até ali drenava o pouco de força que restava em minhas pernas, e agora, diante dele, a respiração parecia impossível.
O vestido branco, pesado, parecia sufocar-me. O véu de tule caía pelos meus ombros frágeis, e os dedos trêmulos apertavam o buquê de lírios brancos como se fosse minha única âncora. O salão inteiro estava mergulhado num silêncio denso, um silêncio que parecia pesar mais do que o próprio ar. Cada olhar estava voltado para o altar, cada respiração suspensa, como se o mundo tivesse parado para testemunhar o destino de duas famílias inteiras.
Quando finalmente parei diante de Lucca Ferraro, o coração martelava no peito com tanta força que eu tinha medo de que todos ouvissem. Ao meu lado, William, meu pai, hesitou antes de soltar-me. Os dedos dele permaneceram presos ao meu braço, como se não quisessem deixar-me ir.
Ele inclinou-se levemente e tocou o meu ombro, com os olhos marejados carregando um pedido mudo, quase uma súplica desesperada:
"Filha, volta atrás… ainda há tempo."
Mas não havia mais tempo.
Baixei os olhos, respirando fundo, tentando controlar o tremor que ameaçava denunciar-me. William, então, recuou devagar, como quem se despede de algo precioso. Sentou-se no banco da família, com o maxilar tenso, o olhar cravado em mim, prometendo silenciosamente que estaria ali, acontecesse o que acontecesse.
Mas era tarde demais. A decisão já estava tomada.
E então, Lucca deu um único passo à frente. Pequeno, quase imperceptível. Mas o suficiente para que a atmosfera mudasse por completo.
A distância entre nós diminuiu, o ar rarefez, e o peso do silêncio tornou-se insuportável. Ele estava diante de mim e não estendeu a mão. Não sorriu, não fingiu.
O noivo perfeito que todos esperavam ver não estava ali. No lugar dele havia um homem perigoso. Um predador controlando cada gesto, cada palavra, cada respiração.
Lucca inclinou-se levemente, aproximando o rosto do meu até que os lábios ficaram a poucos centímetros da minha pele. O perfume amadeirado e intenso, tão familiar, envolveu-me, mas, naquele instante, o aroma que antes me confortava agora parecia sufocar-me, aprisionar-me.
— Não ouse recuar, Clara… — A voz dele saiu baixa, grave, precisa como uma lâmina. Cada sílaba carregava um peso, uma força contida, um aviso. — Não vou perder outra noiva hoje.
Meu corpo inteiro tremeu.
Ele havia dito Clara, não Isadora.
O som do meu próprio nome nos lábios dele foi um golpe certeiro, um segredo revelado diante de todos, mas compreendido apenas por nós dois. O jogo começava ali. Um jogo silencioso, cruel, que só nós conhecíamos as regras.
Meu coração disparava, o peito subindo e descendo em um ritmo descompassado. Engolindo o nó que se formava na garganta, mantive meus olhos verdes fixos nos dele, implorando por um sinal, por qualquer traço de humanidade. Mas Lucca Ferraro não era um homem fácil de decifrar.
Nos olhos azuis dele havia raiva.
Havia frieza.
Mas havia algo mais. Algo profundo. Escuro. Um peso contido que parecia prestes a explodir. Ele inclinou-se mais um pouco, de forma quase imperceptível, até que sua respiração quente roçou a pele sensível abaixo da minha orelha. Um arrepio violento percorreu-me a espinha, deixando-me sem reação, como se o corpo tivesse se rendido por completo.
— Mantenha essa farsa até o final… — ele sussurrou, a voz baixa, grave, carregada de um perigo silencioso que atravessou-me inteira. — Caso contrário… muitos vão pagar por isso.
As palavras bateram em mim como um golpe seco, profundo, devastador. Quis protestar, dizer que não tinha culpa, que não queria estar ali, mas as palavras morreram na garganta.
Lucca, por outro lado, não desviava o olhar.
Os olhos azuis queimavam com intensidade fria, impossível de decifrar. Ódio, desejo, controle absoluto, tudo isso coexistia ali, de forma sufocante.
O silêncio entre nós durou apenas alguns segundos, mas para mim pareceu uma eternidade.
E então, ele recuou um passo. Lentamente, ajeitou os punhos da camisa sob o paletó, um gesto pequeno, mas carregado de uma calma letal, como um predador que se afasta só para analisar o próximo movimento. Quando voltou a erguer o olhar, o semblante estava neutro, perfeito, um disfarce tão impecável que nenhum dos convidados imaginaria o que acabara de acontecer.



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