“Há uma beleza sombria em dar tudo de si, sabendo que talvez reste nada.”
Clara Vasconcelos
O som dos aplausos ainda reverberava pelos jardins da Mansão Ferraro quando senti a mão de Lucca abandonar a minha cintura com uma frieza que me cortou como lâmina. O arrepio que subiu pela minha coluna não tinha nada a ver com o beijo, nem com a música, era um presságio. Era o peso do que estava por vir, como o primeiro trovão antes da tempestade.
A valsa cessou e, por um instante, tudo pareceu perfeito do lado de fora. O som de taças tilintando, uma risada aqui, outra ali, sussurros encantados sobre a “química perfeita” do casal. Lustres pendiam da pérgola coberta de heras, e luzes quentes desenhavam círculos dourados na grama. Para eles, aquilo era romance, um verdadeiro conto de fadas. Para mim, era a borda de um precipício. Eu me equilibrei no limite, olhando para baixo, e o vazio me devolveu um silêncio que só existia entre nós dois.
Um silêncio perigoso. Um silêncio cheio de perguntas que eu não queria e não podia responder.
Assim que cruzamos o limite da pista de dança, os dedos dele encontraram a minha mão. Não foi um toque, foi um grilhão. Não havia carinho, havia posse, controle. Sem dizer uma palavra, Lucca me arrastou para longe das lanternas, longe dos olhos curiosos, atravessando os caminhos de pedrinhas brancas que serpenteavam pelos canteiros de lavanda e magnólias.
O perfume adocicado das flores parecia zombar do nó na minha garganta. Meus saltos afundavam na grama úmida, e o buquê de lírios, preso pela fita, tremia junto dos meus dedos suados. O ar entrava curto, saía em suspiros, e o gosto do beijo, tão recente, ainda queimava nos meus lábios e incendiava o meu corpo, um contraste com o gelo que emanava dele.
Paramos numa clareira quase oculta, onde carvalhos antigos erguiam colunas de sombra e vento. Havia um banco de mármore e uma fileira de colunas apoiando a varanda lateral. Um refúgio que, de tão afastado, soava como exílio. Ali, o som da orquestra virava murmúrio e a festa parecia um eco distante. Ele soltou minha mão com brusquidão e o impacto fez-me dar um passo torto para trás, foi só então que me dei conta de que estávamos sozinhos. Longe o suficiente de tudo, perto demais um do outro.
Lucca girou com um controle quase letal, posicionando-se diante de mim. O terno preto caía impecável, desenhando a rigidez dos ombros largos. A gravata, levemente desalinhada pela brisa, apenas reforçava a impressão de que nada nele era acidental. O perfume amadeirado envolvia cada centímetro de ar entre nós, soando familiar mas, naquela hora, sufocante.
Mas não foi o perfume, não foi o corte do terno, não foi o som do tecido roçando que me prenderam quando ele deu um passo. Foram os olhos dele que me prenderam.
Azuis, friamente azuis e duros como aço.
Havia raiva ali, e um controle quase cruel, um cálculo que me atravessou por inteiro. Quando avançou, recuei. Ele avançou de novo, e minhas costas encostaram no mármore gelado da coluna. O frio atravessou a renda do vestido grudando na minha pele. Estávamos tão próximos que eu podia sentir a respiração dele bater no meu rosto, quente, ritmada, como um relógio que marcava a contagem regressiva do meu erro.
— Não sei por que a sua irmã fugiu… — disse com a voz baixa, grave, arrastada. — Não sei quem achou que colocar você no altar no lugar dela seria brilhante… mas espero que entenda o que acabou de fazer.
Engoli em seco, sentindo o coração bater contra as costelas como um tambor desesperado. Eu queria responder, queria explicar, mas meu corpo não obedecia. Cada músculo estava tenso, imóvel, preso no espaço entre o medo e a culpa.
— Eu… — tentei dizer, mas a voz falhou miseravelmente.
Foi quando ele ergueu a mão e segurou meu queixo, obrigando-me a encará-lo.
— Olhe para mim, Clara. — O tom não era um pedido. Era uma ordem.
Nossos olhos se encontraram, os meus marejados, os dele afiados como lâminas. Ele me estudava com intensidade, como se cada expressão minha fosse uma pista, uma confissão silenciosa.
— Você entrou naquela igreja no lugar da sua irmã — disse, com o olhar fixo, inabalável. — Não me importa se foi plano, acidente ou desespero. Não me importa o motivo. — Ele inclinou o rosto um centímetro, o suficiente para o azul invadir tudo. — A única coisa que me importa é que, a partir do momento em que abriu a boca e disse “sim”, você assumiu tudo.
As palavras atravessaram o meu peito como um soco dado no exato lugar onde não há defesa. O anel apertou no meu dedo, a esmeralda pareceu pesar o triplo.
— Lucca, eu… eu só queria…


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