Rayra manteve a frieza durante toda a refeição. Ela comeu em silêncio, sem olhar diretamente para Victor, tratando o estrogonofe como um mero combustível necessário à sua sobrevivência. A frieza era seu escudo, a prova de que a transação estava acima de qualquer emoção.
Logo após o almoço, a enfermeira chegou, Joyce, uma moça simpática e prestativa, contratada por Victor para auxiliar Rayra em sua recuperação. Victor mal conseguiu apresentá-las, Rayra apenas assentiu com a cabeça, já se levantando com dificuldade para ir ao banheiro.
Victor, entendendo que seu papel agora era de provedor e segurança, não invadiu o espaço dela. Ele permaneceu na sala o tempo todo. Joyce ajudou Rayra com o banho e depois com a troca dos curativos, falando tudo calmamente e com profissionalismo.
Quando Joyce terminou o trabalho e se despediu, Victor esperou alguns minutos. Ele respirou fundo e foi até o quarto. Encontrou Rayra deitada, de costas para a porta, a cabeça afundada no travesseiro.
Ao se aproximar, ele notou que o silêncio não era de repouso, Rayra estava chorando.
Ele se ajoelhou ao lado da cama, sentindo-se impotente.
— Rayra? — perguntou, com a voz baixa e cautelosa.
— Quer alguma coisa? Água? Comer? Tomou os remédios?
Ela continuou chorando, com a cabeça enterrada no travesseiro, e não disse nada. O silêncio era a arma dela, e o choro, a prova de que, ela estava extremamente vulnerável.
Victor ficou ali por mais alguns minutos, aceitando que Rayra não falaria. Ele respeitou o silêncio e o choro, mas não queria que ela sentisse que estava sozinha.
— Eu não vou te pressionar, Ray. — Ele falou, afastando-se lentamente.
— Eu só quero que saiba que eu estou aqui, se você precisar de qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.
Ele saiu do quarto, fechando a porta.
Rayra passou o resto do dia confinada ao quarto. O sol da tarde se arrastou pela janela e desapareceu, deixando o cômodo escuro. Ela alternava entre o sono leve e o despertar confuso, sem conseguir encontrar conforto ou descanso real.
A dor da ferida era uma lembrança constante, mas a dor existencial era pior, ela não sentia vontade de comer ou fazer nada.
Na sala, Victor estava preocupado. Ele não a ouvia se mover e a quietude era ensurdecedora. Ele caminhava pela sala, olhando de vez em quando para a porta fechada.
Em suas primeiras tentativas de quebrar o jejum e a tristeza dela, ele agiu com cautela. Primeiro, deixou um copo de suco de laranja fresco na mesa de cabeceira e depois, mais tarde, uma tigela com frutas picadas (morango e banana), retirando-se antes que ela abrisse os olhos para não forçá-la.
Rayra ignorou as ofertas; a fruta murchou, e o suco esquentou. No início da noite, Victor decidiu tentar algo mais reconfortante e menos invasivo. Ele foi para a cozinha e preparou um misto quente simples e esquentou um copo de leite. Ele sabia que precisava cuidar dela, ela querendo ou não.

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