Um dia antes da volta de Victor, Rayra executou seu plano com frieza calculista. Usando o tempo de ausência dele e o dinheiro depositado, ela arrumou todas as suas coisas, os presentes, as roupas novas, os cosméticos, absolutamente tudo o que Victor havia lhe dado. Ela deixou o cartão de crédito dele sobre a mesa e organizou o apartamento de forma impecável, removendo qualquer rastro de sua presença, exceto pela prova de sua gratidão.
Na cozinha, Rayra fez um bolo de prestígio lindo, decorado com brigadeiros e beijinhos. Ela o deixou na geladeira, como uma oferta de paz e uma doce despedida. Em seguida, colocou uma carta em um envelope, deixando-a em cima da mesa. Rayra fechou a porta e foi embora para sua nova cidade e sua nova vida.
Victor chegou tarde da noite, ansioso e exausto pela viagem. Em suas mãos, ele trazia um grande buquê de rosas e uma pequena caixa com um par de alianças douradas, um símbolo de que ele levava a sério o plano de casamento civil.
— Ray? Cheguei! Tenho uma surpresa! — Ele chamou, deixando as flores e a caixa na sala.
Ele foi direto para o quarto e encontrou o armário vazio. Uma onda de pânico o atingiu. Ele pegou o celular e tentou ligar para Rayra, mas a chamada caiu diretamente na caixa postal. Ele enviou uma mensagem apressada, com o coração acelerado:
"Ray, onde você está? Cheguei agora!"
Preocupado, ele foi para a cozinha e viu o bolo. O perfume doce e a perfeição da sobremesa eram estranhamente sinistros. Seus olhos caíram sobre o envelope na mesa. Ele pegou a carta com mãos trêmulas, pressentindo o golpe.
Victor começou a ler, as palavras de Rayra se tornando a trilha sonora do colapso de seus planos:
"Victor, não tinha um jeito mais fácil, nem menos difícil de fazer isso. A nossa história nem deveria ter começado, e agora, precisa acabar. Sou extremamente grata por tudo de bom o que você fez por mim. Te perdoo do fundo do meu coração e até pude te entender melhor.
Realmente fico lisonjeada com o seu carinho, sua admiração, e muito mais, por ser vista com seus lindos olhos, que aqueceram não só a minha pele, mas também minha alma, meu coração. Você pode ter certeza que eu nunca vou te esquecer, não importa o tempo que passe.
Eu nunca vou estar no seu nível social, alcançar suas expectativas, e um dos motivos que me fizeram tomar essa decisão, é o fato de eu não poder mais gerar um filho, e por mais que tenham outras formas de ter um, acho injusto te privar de viver isso. Já tive minhas experiências, meus traumas, e realmente acho que tudo acontece no tempo de Deus, como deve ser.
Pensei muito em nós, e te desejo tudo de melhor na vida. Espero que vá viajar, volte a ser um gato de terno, e encontre um dia, alguém para compartilhar o seu lindo plano de relacionamento! Te admiro demais.
Espero que me perdoe por partir assim. Estou bem, encontrei um bom emprego, mudei de cidade e só quero recomeçar.
Se você puder me perdoar, eu adoraria ter sua amizade, um dia! Fiz um bolo de despedida, espero que esteja tão gostoso quanto você! Obrigada por tudo."
Victor ficou parado no meio da sala, com as alianças douradas pesando em uma mão e o buquê murchando na outra. A dor da perda era ressaltada pelo bolo de prestígio e pela absoluta certeza de que ela o havia deixado porque, ele não fez o suficiente.
Victor ficou muito triste, incapaz de processar a carta de Rayra. Ele percebeu que ela havia abandonado o número de celular que ele havia comprado. Pela primeira vez, ele não pensou no dinheiro ou nos presentes, ele só queria que ela voltasse, pelo menos para conversarem.
A viagem dele para a Europa era definitiva. Por dias, ele se fechou, sofrendo calado, e sumiu das redes sociais. Ele nem imaginava que sua irmã, Dania, havia agido como catalisadora para o afastamento de Rayra.
Dois dias antes de Victor ir embora do Brasil, ele pensou em um último recurso desesperado para alcançá-la. Ele pegou o celular e enviou um PIX no valor irrisório de 0,01 centavo com a mensagem:
"Quero me despedir!! Vem me ver."
Logo depois, mandou outro:
"Viajo segunda-feira."
Ele ficou esperando ansioso, sem sair de casa, sabendo que, ela receberia a notificação.
Rayra viu e não aguentou. No sábado, após o trabalho, ela se preparou para a visita. Colocou um vestido tubinho preto regata na altura das coxas, sandália de salto plataforma, escovou o cabelo e se maquiou super bem.
Ela pegou um ônibus, depois um Uber, e chegou ao prédio de Victor já passava das vinte e uma horas. Rayra conversou na portaria e subiu sem avisar, carregando uma garrafa de vinho e uma bolsa grande com roupas. Ela estava lindíssima, cheirosa, determinada a dar o adeus final.

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