Mas o sono veio rápido e profundo, embalado pelo silêncio de seu próprio lar e pela satisfação, ainda que agridoce, de ter, por um breve momento, virado o jogo da vida a seu favor. Miranda despertou do sono reparador, com o corpo ainda sentindo o cansaço, mas a mente agora dominada pela ansiedade do que a esperava. A sombra de Peterson pairava sobre cada pensamento. Ela se aprontou com suas roupas simples, o uniforme de faxineira que contrastava tão duramente com a camisola de seda da noite anterior.
Chegou à imponente multinacional, o coração batendo forte no peito. No entanto, o dia transcorreu com uma normalidade quase decepcionante. Ninguém a tratou de forma diferente; os olhares eram os de sempre, os colegas a cumprimentavam casualmente. A líder do setor, apenas lhe alertou que ela tinha alguns dias para pagar as horas do dia faltado ou iriam descontar.
Miranda fez as faxinas designadas, varrendo, limpando e organizando, o cheiro de desinfetante substituindo o perfume de morangos e ameixas. Ela esperava, a cada canto, a cada porta, que Peterson aparecesse, que algum sinal da noite anterior se manifestasse. Mas nada aconteceu. Ele não a procurou, não a chamou, não fez qualquer menção ao que havia ocorrido.
Ao final do expediente, Miranda foi embora, com o corpo dolorido pelo trabalho físico, mas a mente ainda mais inquieta. Os dias se seguiram na mesma rotina monótona. Ela cumpria suas tarefas, observava o movimento da empresa, e esperava que pudesse repetir a "dose" de alívio e prazer, mesmo que viesse com o preço de sua dignidade.
Contudo, a rotina não foi quebrada. O silêncio de Peterson era ensurdecedor. Para Miranda, era como se a noite na mansão nunca tivesse existido. Ela nem viu mais Peterson pelos corredores, ele parecia ter desaparecido, mergulhado na sua rotina de CEO, enquanto ela seguia invisível em sua nova função. A ausência e a indiferença de Peterson martelavam a mente de Miranda, se perguntando o que tinha feito de errado, para ele simplesmente sumir. A esperança de que aquela noite tivesse sido o início de algo, mesmo que estranho, desmoronou-se. Ela ficou chateada, com um gosto amargo na boca, o ego ferido. A realidade, fria e dura, a abraçou novamente.
Miranda tentou, de verdade, se integrar. Buscou sorrisos nos corredores, trocou poucas palavras com as colegas de equipe na limpeza, mas a sensação de que não pertencia a lugar nenhum naquele novo ambiente era esmagadora. Ela não conseguiu fazer amigos. As conversas cessavam quando ela se aproximava, os olhares se desviavam. Sentia-se excluída, uma figura invisível que passava pelos cantos, limpando a sujeira que outros faziam.
O golpe mais doloroso vinha na hora das refeições. As colegas se juntavam, os sussurros sobre "vaquinha" para pedir salgados ou cafés chegavam aos seus ouvidos, mas o convite nunca vinha. Era a prova incontestável: ninguém lá gostava dela. Miranda, então, comia seu pão com margarina, comprado no supermercado com o dinheiro que Peterson lhe deu, observando de longe o riso e a camaradagem que não a incluíam. Aquele emprego, que deveria ser seu novo começo, estava se tornando mais um lugar de solidão e humilhação, apenas em um cenário mais luxuoso. A verdade é que as colegas, sabiam que alguém a colocou lá dentro e não gostaram nada, dela ter pego a vaga, de uma familiar, de uma delas.
Peterson observava Miranda de longe às vezes. No grande refeitório da empresa, ele a via sempre sozinha no jantar, com um pote simples em mãos, os fones de ouvido abafando o mundo ao seu redor. Ela chegava e saía, uma figura solitária no vasto cenário corporativo. Às vezes, ele a seguia à distância na rua, com a discrição de um predador. Via-a pegar o ônibus lotado, com os olhos céticos, sempre séria pelo cansaço, a imagem tão diferente da mulher excitada e vulnerável em sua mansão.
Miranda havia se instalado em sua cabeça, um enigma que ele não conseguia decifrar, às vezes ele a achava uma bela atriz, oportunista, mas na maioria das vezes, notava o quanto ela era comum e sem graça, e era isso, que ele mais gostava nela. A noite que compartilharam foi intensa, animal, mas Peterson não queria se relacionar daquele jeito, pagando por sexo. Aquilo não era o que ele buscava para si, e a ideia de misturar os dois o incomodava. Também por ter medo de ser ameaçado ou exposto no futuro. Já que ele tinha uma reputação a zelar.
Ainda assim, a presença dela em sua empresa, a proximidade diária, era um lembrete constante. Ele queria mais, sim, mas algo diferente do que já havia acontecido. Algo que ele não sabia como definir, mas que não envolvia transações monetárias para o prazer. A decisão de não chamá-la para sair de novo, justamente porque haviam transado, era a forma dele de tentar separar os dois mundos, mas a imagem de Miranda, sozinha e alheia, continuava a persegui-lo, era difícil entender, porque não a tirava de seus pensamentos.
Peterson não conseguia tirar Miranda da cabeça. A imagem dela, sozinha no refeitório, sempre com os fones de ouvido isolando-a do mundo, era um contraste gritante com a mulher selvagem em sua cama. A indiferença que ele tentava manter era uma fachada frágil. Havia um novo fetiche martelando em sua mente, um que ele sabia ser mais complicado e que exigiria uma abordagem diferente, algo além de uma simples transação. A necessidade de realizá-lo crescia a cada dia e ela parecia a única mulher possível, de realizar.
Ele decidiu que era hora de agir. No final do expediente, Peterson aguardou. Posicionou-se estrategicamente para vê-la sair, observando enquanto Miranda se despedia das poucas colegas que ainda se encontravam ali, o semblante dela era cansado, a rotina de faxineira já pesando em seus ombros. Quando ela finalmente saiu do prédio e começou a caminhar em direção ao ponto de ônibus, ele acelerou seu carro, e encostou-o suavemente ao lado dela.
O vidro fumê do passageiro baixou, revelando o rosto sério de Peterson. Seus olhos encontraram os de Miranda, que parou abruptamente, o corpo tenso pela surpresa.
— Vem! — disse ele, com a voz firme, sem dar margem para questionamentos.
— Precisamos conversar.
Miranda se aproximou do carro, a surpresa rapidamente substituída por uma determinação. Seus olhos encontraram os de Peterson, e ela balançou a cabeça, com a voz séria e firme.

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