Três dias após ser internada no hospital, Scarlett finalmente teve permissão para sair. Os médicos verificaram todos os seus sinais vitais e ela estava bem. Além disso, as pomadas que Ryke aplicava em seus cortes todos os dias tinham sido muito eficazes, já que suas feridas estavam quase completamente curadas.
O único problema era que ela ainda estava com dor, apesar de não ter quebrado um único osso. Uma enfermeira a ajudou a vestir uma calça de moletom e uma regata que Ryke havia trazido de casa, mas a jovem mal conseguia segurar o choro, toda vez que precisava mover o corpo. Seus olhos estavam cheios de lágrimas ao terminou de se vestir; então, sentou-se na beirada da cama, tomando um analgésico que a enfermeira havia lhe dado.
Estava tomando-o com água, quando Ryke entrou, vestindo uma camiseta que se encaixava perfeitamente em seus bíceps. Era a primeira vez que ela o via em algo que não fosse um terno. Bem... a primeira vez desde quando acordou ao lado dele sem camisa, claro.
Se ele notou o rubor em seu rosto, não disse nada. O rapaz simplesmente a cumprimentou e ocupou-se em assinar alguns papéis que recebeu do médico.
"Tá pronta pra ir?" Ele perguntou depois de um tempo, seus olhos ainda fixos nos papéis.
"Sim." Ela respondeu, em voz baixa.
Queria se desculpar e agradecer por tudo o que ele fazia, e pensava que estava sendo um fardo para ele. A clínica em que estava hospedada ficava fora da cidade de Nova York, no entanto, Ryke sempre arranjava tempo para vê-la duas vezes ao dia. Além disso, estava pagando suas despesas hospitalares, aplicando pomadas em suas feridas e certificando-se de que ela se alimentasse adequadamente... Havia tantas coisas pelas quais era grata, mas não sabia como expressar-se, com medo de se envergonhar ainda mais, se tentasse agradecê-lo.
Ryke terminou de assinar os documentos, deixando-os na mesinha de cabeceira, perto o suficiente para a jovem respirar seu perfume reconfortante. A maneira como ela dependia dele realmente a assustava agora, até mesmo o cheiro dele havia se tornado um vício.
"Venha aqui..."
Ryke gentilmente segurou ambas as mãos dela e a ajudou a ficar de pé. Scarlett cerrou os dentes para abafar os gemidos de dor. No entanto, ele parecia estar perfeitamente ciente de sua condição. Assim que ela ficou de pé, ele passou os braços em volta da cintura dela e descansou seu corpo pequeno contra o seu lado, de modo que ela quase se apoiava nele para andar, o que ajudou a aliviar a pressão nas pernas.
"Obrigada, senhor." Ela sorriu.
Ryke devolveu a gentileza e a acompanhou até a porta. Eles seguiram em um ritmo lento e nem uma vez o rapaz mostrou qualquer sinal de aborrecimento. Scarlett o admirava de uma maneira que esperava ser discreta o suficiente, imaginando o que havia feito para merecer alguém que cuidasse tão bem dela.
Eles despediram-se de todas as enfermeiras e médicos que encontraram, antes de sair da pequena clínica. O ar fresco do verão beijou o rosto de Scarlett e ela o respirou, rindo. Aqueles três dias no hospital pareceram uma eternidade, e sentia falta de estar ao ar livre. Olhando para o lado, percebeu a entrada da mata, a poucos metros do estacionamento da clínica. Seu bom humor diminuiu imediatamente ao lembrar-se das circunstâncias de seu sequestro e de sua fuga bem sucedida. Ela poderia ter morrido ali e esse pensamento fez um arrepio percorrer todo o seu corpo. Teria se tornado mais um número nas estatísticas de assassinato em uma floresta escura, talvez outro caso arquivado também...
"Ei..." A voz de Ryke a trouxe de volta à realidade: "Você tá bem?"
"Quê? Ah, sim, tô, sim. Desculpe…"
Ele seguiu os olhos dela e examinou a floresta próxima, mas não havia nada para ver, exceto árvores altas. Ryke apertou sua cintura, para tranquilizá-la, e eles caminharam o resto do caminho até seu carro.
Scarlett revirou os olhos, ao ver que ele havia mudado novamente de veículo. Agora, dirigia um Range Rover escuro.
"Por favor," ela disse em um tom sarcástico: "Pare de esfregar na minha cara que tem amigos ricos que te emprestam carros luxuosos, tá bom? Você não pode ficar trocando de carro a toda hora, só para!"
"Tá com ciúmes, né?" Ele riu.
Scarlett revirou os olhos, mas havia um pequeno sorriso em seu rosto. Ryke abriu a porta do passageiro para ela e a ajudou a entrar. Ele então colocou a bolsa e os remédios dela no banco de trás, antes de sentar-se ao volante.
Ela colocou o cinto de segurança e suspirou, feliz por estar indo para casa... Mesmo que não tivesse mais uma casa de verdade, e se perguntou se seu pai sabia sobre seu sequestro. Provavelmente não... ela ficaria surpresa se ele tivesse lhe dispensado um único pensamento. Deveria estar se divertindo com sua nova família, que, para início de conversa, havia planejado o assassinato dela. Scarlett apertou a mandíbula, pois pensar em Megan e sua mãe a enfurecia. Desta vez, ela não iria deixá-las se livrar tão fácil.
"Senhor... eles já têm alguma pista sobre os homens que me sequestraram?" Ela perguntou a Ryke.
"Ainda não, mas a polícia tá trabalhando nisso."
Scarlett, então, assentiu. O Range Rover saiu do estacionamento e seguiu rumo a uma estrada longa e deserta margeando a floresta. De acordo com o GPS, estariam no Soho em cerca de uma hora.
O silêncio que os rodeava era confortável, mas Ryke ligou o rádio. Instantaneamente, o carro foi preenchido por uma velha canção dos anos 60, "Me Sentindo Bem" de Nina Simone.
Os olhos de Scarlett arregalaram-se, quando ele bateu os dedos no volante, a cabeça balançando ao som da música. De repente, sua voz explodiu, acompanhada pela do cantor:
"...Brisa passando, você sabe como eu me sinto... É um novo amanhecer, é um novo dia, É uma nova vida para mim, ooh. E tô me sentindo bem... Tô me sentindo bem..."
Scarlett ficou surpresa por vários motivos, a começar pelo fato dele ser fã de canções antigas. Então, havia um pequeno sorriso no rosto dele, que ela nunca tinha visto em ninguém antes, uma mistura de nostalgia, alegria e despreocupação que não apenas o tornava bonito... Seu sorriso o transformava em um anjo, e a expressão gentil em seu rosto era terrivelmente atraente.
Ela não conseguia ver o próprio rosto, mas sabia que provavelmente estava vermelha como um tomate. Seu coração batia forte contra o peito e sua garganta se apertou. A sensação de calor que se espalhou por ela era muito familiar. Sempre teve um coração terno, do tipo que se apaixonava facilmente. Agora, estava acontecendo novamente. O estúpido acompanhante estava invadindo seu ser e ela não gostava disso.
Quando Ryke a olhou, ela rapidamente voltou-se para a janela, para escapar do olhar. Ele não parecia notar a onda de emoções dentro dela, e continuou cantando de maneira despreocupada. A jovem passou a mão no peito, sobre o coração, tentando acalmá-lo. 'De jeito nenhum iria começar a gostar daquele homem', disse a si mesma. Um acompanhante que passava todas as noites satisfazendo outras mulheres? Um mulherengo que sabia exatamente como seduzir e partir o coração das pessoas? Não. Ela já havia tido desgostos o suficiente para uma vida inteira; não faria isso consigo mesma.
Olhando pela janela, ela de repente percebeu que havia duas vans pretas logo atrás deles. Por um momento, pensou que era apenas uma coincidência e que os carros não os estavam seguindo. Mas começou a se preocupar quando fizeram as mesmas curvas que eles e pareciam copiar exatamente a velocidade do Range Rover. O coração dela naquele momento não batia mais forte por pensar em Ryke, por outro lado, agora estava apavorada.
"Senhor...." Ela sussurrou.

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