Scarlett andava incansavelmente pela sala, roendo a unha do polegar, e parecia um animal em uma gaiola, mostrava-se preocupada e amarga.
Em frente a ela, Ryke estava sentado no sofá, mastigando algumas cenouras que encontrou na geladeira e a observando. Falando sinceramente, tinha muita pena dela. Ela contou a ele que suas maiores inimigas haviam se mudado para a casa de sua mãe e ele sabia que estaria no mesmo estado que ela, caso isso acontecesse com ele, e talvez ainda pior.
Já era difícil o suficiente ter sido traída por sua melhor amiga, mas vê-la tirar tudo de você, sem poder fazer nada a respeito? Era absolutamente terrível. Ele conseguia entender o fogo em seus olhos, o ódio... Não combinava com um rosto inocente como o de Scarlett, mas era justificado.
Ela ficou em sua própria bolha por mais de meia hora. Ryke queria ajudá-la, mas não tinha certeza se ela o ouviria, se tentasse falar com ela. Então, limpou a garganta e decidiu tentar mesmo assim:
"Então... você já decidiu o que fazer agora?"
Claramente, não era a abordagem certa. O fato era que ele conseguiu chamar a atenção dela, mas não da maneira positiva que esperava. A jovem dirigiu seu olhar assassino para ele e Ryke, concretamente, se retraiu. Era a primeira vez que estava genuinamente com medo de alguém. O desespero e a raiva nos olhos de Scarlett eram bastante assustadores.
"O que acha que eu tô fazendo?" Ela sussurrou, raivosamente.
"D-desculpe... só pensei que estava se afundando em autopiedade, ao invés de realmente pensar em..."
"Bem, senhor, tudo o que tô fazendo agora é pensar! Mas vou te dizer que traçar um plano maligno não é tão fácil quanto você pensa, tá bom?"
"E daí? Vai deixá-las vencer porque a garota gentil como você não pode ser cruel, pela primeira vez?"
Scarlett cerrou as mãos, tudo o que queria fazer era pular da mesa e dar um soco na cara de Ryke. Ele era a definição perfeita de "colocar mais lenha na fogueira". Seria que não conseguia ver como ela já estava arrasada? Por que sempre escolhia o pior momento para ser um idi*ta?
Claro que ela nunca deixaria Megan e sua mãe vencerem, e venderia sua alma ao diabo, se isso significasse se vingar delas. Tudo o que queria fazer era voltar para casa e expulsá-las, mas não podia, e odiava a sensação de impotência.
No entanto, estava ciente de uma coisa: Tomar decisões impulsivas só pioraria sua situação. Ela não era impotente, por mais que seu próprio cérebro tentasse convencê-la disso. Na verdade, tudo o que precisava era de um plano bem elaborado, isso era algo que teve que aprender com seus inimigos.
Essas duas não surgiram com suas maldades, de modo a arruinar sua vida, da noite para o dia. Tudo foi bem pensado e lentamente colocado em ação ao longo de muitos anos. Estavam preparadas, até ganharam a confiança dela antes de atacar. Scarlett precisava agir como elas, se quisesse vencer a guerra.
O que precisava era de paciência e inteligência. Precisava saber exatamente qual era a fraqueza de Megan e de sua mãe e atacá-las exatamente onde doeria tanto, que nunca se recuperariam.
Seus pensamentos frios e mortais de vingança fizeram uma onda de êxtase passar por ela. Scarlett visivelmente se acalmou e seu corpo ficou menos tenso. De alguma forma, parecia mais assustadora assim. Ryke a olhou com uma sobrancelha erguida, perguntando-se por que ela não estava gritando e chorando, como de costume.
"Você tá bem?" Ele perguntou a ela.
Scarlett assentiu lentamente, sentando-se no sofá ao lado dele e roubando sua tigela de cenouras.
"Não vou me apressar." Ela disse, olhando para frente, como se não estivesse falando com ele: "Vou tomar as coisas com calma. As melhores ideias surgem para quem sabe esperar e é isso que eu vou fazer. Serei muito paciente, na verdade. Megan e sua mãe nem vão conseguir perceber meus movimentos."
Os lábios de Ryke alongaram-se em um sorriso. Scarlett mordeu uma cenoura, antes de olhar para ele, seus lindos olhos limpos de toda a raiva e desespero que tinham antes, e ele gostava de vê-la assim, confiante. Mesmo que fosse uma garotinha mimada, ele confiava no poder que residia dentro de Scarlett Devins, já tinha visto isso na primeira vez que se conheceram.
No dia em que ela atacasse seus inimigos, ele queria estar na primeira fila, para assistir a tudo, e mal podia esperar.
Por outro lado, Megan e sua mãe não faziam ideia do que era preparado contra elas. Tudo o que conseguiam pensar era que seus sonhos finalmente estavam se tornando realidade, faziam parte da grande sociedade de Nova York.
Afinal, Megan havia estado na casa da família Devins muitas vezes antes, então não ficou tão impressionada quanto sua mãe, ao entrarem na mansão. A mulher mais velha olhou ao seu redor, com a boca aberta e os olhos enlouquecidos, não sabia no que focar, tudo era tão atraente e caro. Olhou para o teto que estava bem distante, poderia até ser confundido com o céu. Um lustre de cristal pairava sobre elas na entrada e sabia que provavelmente custava mais do que seu apartamento anterior.
"Megan, por favor, me diga que isso não é um sonho."
"Não é um sonho, mãe."
"Não... me belisque, preciso ter certeza."
Megan não hesitou, beliscando o braço da mãe, o que fez a mulher reclamar de dor.
"Convencida agora?"
Joyce riu, esfregando seu braço. Havia sonhado tantas vezes com seu triunfo, que era difícil acreditar nele, agora que finalmente havia acontecido. Dan Devins, por sua vez, voltou para a empresa, deixando-as a vontade para instalarem-se livremente.

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