O que Scarlett não sabia era que, enquanto ela dormia no balcão da cozinha, Ryke recebeu um telefonema do sr. Goldwin, dizendo que poderia ir visitar o pai.
Ele queria se despedir antes, mas sem perturbar o sono tranquilo da jovem, por parecer tão pequena e fofa. Então, apenas brincou um pouco com o cabelo dela e saiu.
A caminho da clínica particular, não conseguia parar de pensar nela. Agora havia se tornado algo recorrente ter sua mente totalmente focada em Scarlett, mesmo quando precisava estar mais concentrado.
Havia conhecido o sr. Goldwin no saguão da clínica. O homem já havia providenciado a papelada e conduzido Ryke até o último andar, onde seu pai estava hospedado em um quarto VIP.
Na porta, Ryke encontrou uma empregada e um guarda-costas. Ambos eram familiares para ele, por trabalharem para a família Stoll desde que era muito jovem. A velha empregada, chamada Elena, vinda da Bulgária, ficou especialmente feliz em vê-lo.
"Jovem senhor Stoll!" Ela disse animadamente, correndo para segurar as mãos de Ryke.
O jovem sorriu para ela, os olhos da mulher lacrimejando, porque realmente sentia falta dele e, mesmo que o guarda-costas permanecesse imóvel na porta, também parecia estar feliz em vê-lo.
"Você voltou." A empregada suspirou: "A gente tá muito feliz de te ver."
"Obrigado, sra. Elena. Como tá o meu pai?"
"Hum... não muito bem, infelizmente. Ele só piora, e tô muito preocupada... também pergunta sobre você o tempo todo. De todos os filhos, era o mais distante dele e temia morrer sem vê-lo novamente."
A criada soluçou e cobriu a boca com a mão. Logo, Ryke gentilmente deu um tapinha nas costas dela.
"Tudo bem... tô aqui agora, vai ficar tudo bem."
O guarda-costas abriu a porta do quarto para deixar o jovem entrar. O sr. Goldwin, por sua vez, ficou do lado de fora, e a porta foi fechada suavemente após o jovem CEO.
Era em quarto grande, como esperado para alguém tão influente quanto o sr. Stoll. No entanto, não importa o quão rico alguém se torne, não fica imune a doenças. Ryke pensou nisso, ao aproximar-se da cama e ver a figura adoentada de seu pai deitado ali, fraco e com dor.
Seus cabelos brancos e ralos haviam se tornado quase inexistentes e sua pele era mais cinza do que as próprias cinzas. Parecia já estar morto, com os olhos fechados daquele jeito, mas o bipe suave da máquina à qual ele estava ligado provava que ainda havia um pouco de vida nele.
Sentindo a presença de seu filho, o velho lentamente abriu as pálpebras e seus olhos prateados olharam para o teto e depois para o rosto de Ryke. Parecia não acreditar. Então, piscou várias vezes e limpou a garganta.
"Eu... tô... sonhando?" Ele perguntou em um sussurro.
Ryke sentou-se na almofada de couro ao lado da cama, engolindo em seco e tentando não deixar transparecer suas emoções. Era estranho ver seu pai daquele jeito, porque a última vez que o havia visto, estava perfeitamente saudável. Isso o lembrou de como a vida era cruel.
"Você não tá sonhando, pai." Ele respondeu, segurando a mão ossuda do homem: "Perdeu muito peso..."
O velho soltou uma risada ofegante, que parecia sentir dor.
"O meu filho... tá me vendo pela primeira vez em anos e tudo que tem a dizer é que eu perdi peso? Ah! Bem, filho, é isso que o câncer faz... espero que nunca passe por isso."
Ryke sorriu, olhando nos olhos adoráveis do pai.
"Pensei que nunca mais te veria...", acrescentou o homem.
"Não vai se livrar de mim tão fácil, pai."
"Hum... se eu não estivesse doente, você teria voltado? É como se não quisesse mais nada a haver com a nossa família."
"Claro que eu teria voltado."
"Bem... não te conheço o suficiente, Ryke. Sinto uma distância tão grande entre nós que, às vezes, você quase se torna um estranho para mim."
Ryke não disse nada, por saber que seu pai estava certo. Não estava mais tão perto de seus familiares, mas era para se proteger. Doeria demais para o pai saber que os filhos não se dão bem, ao contrário do que tentam mostrar.
O sr. Stoll nunca admitiria, claro, mas Ryke era na verdade seu filho favorito, talvez por ser o que mais se parecia com ele. O jovem havia herdado a maior parte de seus genes e também era carismático e mulherengo. Ele o lembrava muito de si mesmo, quando mais jovem.
Mas, também acreditava que Ryke carecia de sua sabedoria e habilidades de negócios, o que era lamentável. Tudo o que importava era festejar e estar com mulheres diferentes. Ele o enviou para estudar no exterior, esperando que isso o ensinasse a ser mais responsável, mas Ryke só piorou. Todos os dias seu pai recebia notícias de seus escândalos na França ou na Suíça, o que o decepcionava muito e fez que perdesse a confiança no filho mais novo.
Adivinhando o que seu pai pensava, Ryke deu um pequeno aperto em sua mão. Gostaria de poder provar a ele que não era tão inútil quanto pensava, mas isso o colocaria em grande risco, especialmente com o ciúme de seus irmãos. Seu pai ainda não sabia que estava à frente da maior empresa de Nova Iorque.
"Não quero que se preocupe." Ele disse: "Seu filho tá aqui e não vai a lugar nenhum, eu prometo."
"Sério?"
"Sim, pai, vou ficar ao seu lado, a partir de agora."

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