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O ÚLTIMO BEIJO... ANTES DO DIVÓRCIO romance Capítulo 44

Henry mal se lembrava de como tinha chegado ao hospital. Tudo tinha acontecido numa rajada de gritos, chaves, bolsas e ligações apressadas. Rebecca, com o rosto pálido e os olhos arregalados, tentava respirar como tinham ensinado nas aulas de pré-natal, embora a respiração dela parecesse mais a de uma corredora nos últimos metros de uma maratona.

— Calma, meu amor, já tamos chegando — dizia Henry, segurando a mão dela enquanto desviava de carros e semáforos —. Respira… um, dois, três…

— Não me fala pra respirar! — gritou ela, com a voz trêmula e os olhos cheios de lágrimas —. Tô respirando! Tô…! Ai, meu Deus!...

Henry não respondeu. Só apertou mais a mão dela e pensou, com ternura, que se ela ainda tinha forças pra gritar com ele, era porque estava tudo bem.

Quando chegaram ao hospital, uma enfermeira correu em direção a eles com uma maca. Rebecca foi acomodada imediatamente e Henry a seguiu como uma sombra, sem soltar a mão dela nem por um segundo.

— Ainda não está pronta — disse a médica, verificando os monitores —. Mas tudo vai muito bem.

E isso não a tranquilizou em nada. Rebecca respirava rápido, nervosa, olhando em volta como se procurasse uma saída. Henry, vendo a agitação dela, pegou o telefone e começou a ligar pra todo mundo: pra Seija, pro pai, pra irmã. Em menos de meia hora, o corredor em frente ao quarto parecia uma reunião onde todo mundo falava ao mesmo tempo.

— Você precisa caminhar um pouco — dizia Seija.

— Não, melhor não, pra ela se cansar menos — murmurou Camilo.

— Ela deveria sentar numa bola, dizem que isso ajuda — sugeriu Chelsea.

Rebecca os olhava com uma mistura de desespero e irritação. Por fim levantou a mão e gritou:

— Faz o favor de levantar a mão quem já pariu!

O silêncio caiu imediatamente e todo mundo se olhou.

— Então, por favor, vai buscar quem já pariu. Obrigada! — esbravejou Rebecca, e Henry saiu correndo como se estivesse fugindo do diabo.

Então dá pra imaginar a surpresa de Carlota quando o filho chegou dizendo que ela largasse o café que estava tomando porque Rebecca queria vê-la.

— Eu? Por quê?

Henry passou a mão pelo cabelo, despenteado e suado.

— Porque, ao que parece, entre todas as pessoas próximas a ela… você é a única que já pariu!

Carlota caiu na gargalhada.

— Pelo amor de Deus! Isso foi há mil anos, nem me lembro mais de como foi…

— Mãe! É urgente! Então mesmo que não lembre, vai lá assim mesmo — insistiu Henry —. Só de tranquilizá-la já me ajuda.

Ela o olhou por um momento e por fim se levantou.

— Tá bem, vou — disse, acrescentando com tom prático —. Mas antes, arranja pra mim um chá de framboesa vermelha.

Henry a olhou, incrédulo.

— O quê? Que vontade de chá agora?

Carlota ergueu uma sobrancelha.

— Não é pra mim, gênio. É pra Rebecca.

— Ah não, não começa com seus remédios esquisitos! — replicou ele —. Não vou dar nada estranho pra minha mulher na hora de parir.

— Você quer que ela sofra menos ou não? — perguntou Carlota, olhando pra ele com severidade, e Henry esfregou a nuca, frustrado.

— Se pudesse, sofreria eu por ela — murmurou, com a voz embargada de nervosismo.

— Então arranja o chá.

Carlota entrou no quarto bem quando Rebecca tinha outra contração forte. A encontrou suada, com o cabelo colado na testa, apertando os lençóis com as mãos.

— Por que é que tem que sofrer pra ter um filho?! — reclamou Rebecca, entre arquejos, e Carlota soltou uma risinha enquanto arregaçava a manga da jaqueta.

— Porque senão a gente teria um por ano. Vamos, minha filha, precisa se mover um pouquinho.

Rebecca a olhou horrorizada.

— Me mover? Não consigo nem respirar!

— Consegue sim, mas devagar — disse Carlota, ajudando-a a se sentar —. Anda devagar, isso ajuda o bebê a se encaixar.

Rebecca obedeceu, a contragosto. Se segurou no braço de Carlota e começou a dar passinhos pelo quarto. Cada contração a fazia parar, fechar os olhos e cerrar os dentes.

— Respira, minha filha, respira — sussurrava Carlota —. Isso… assim, muito bem.

Mas em algum momento o ritmo mudou. As contrações começaram a ser mais seguidas, mais fortes, mais urgentes. Rebecca apertava a mão de Henry com tanta força que ele jurava que ia partir ao meio.

— Não aguento mais… — murmurava ela, tremendo —. Já não consigo.

— Consegue sim, amor — dizia Henry, com os olhos marejados —. Já tá quase, já tá quase.

E Carlota pressionou o botão pra chamar a médica.

— Acho que é hora — disse, observando Rebecca se encolher a cada contração.

A médica entrou apressada, verificou os monitores e sorriu.

— Já é hora — anunciou, com calma profissional —. Vamos ter esse bebê agora.

A equipe se moveu rápido, preparando tudo. Henry sentiu que o coração batia tão forte que resoava nos ouvidos. Segurava a mão de Rebecca, que agora arquejava, concentrada, empurrando com todas as forças.

— Vai, Rebecca, mais uma vez — a encorajou a médica —. Já tá quase.

Meia hora de agonia e então houve um último empurrão, um grito sufocado, e… o choro mais lindo que Henry tinha ouvido na vida. Um choro pequeno, forte, que encheu o quarto de algo novo e poderoso.

A médica ergueu o bebê e o enrolou numa mantinha branca.

— É um menino — disse sorrindo —. Parabéns.

Rebecca, com as lágrimas escorrendo pelas bochechas, estendeu os braços.

— Me dá ele…

Henry os olhou, tremendo, sem conseguir falar.

— Como vai se chamar? — perguntou a médica.

Rebecca o olhou e sorriu fracamente.

— Vai se chamar… Ethan — disse —. Significa esperança.

E naquele instante, Henry soube que não poderia ter escolhido um nome melhor.

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