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O ÚLTIMO BEIJO... ANTES DO DIVÓRCIO romance Capítulo 70

O problema não era que Seija conseguisse reconhecer que Sara Fernick era uma excelente advogada. Era brilhante, de fato. O problema era que reconhecer isso não a fazia se sentir melhor.

Porque uma coisa era respeitar a capacidade profissional dela, e outra completamente diferente era aceitar que aquela mulher estava agora ao lado de Camilo. Não queria chamar de ciúme — não era uma adolescente. Mas toda vez que via os dois trocarem um olhar… algo apertava por dentro.

— Meritíssimo — disse então o advogado de Brenda, ajeitando os óculos —, antes de prosseguir, solicitamos que se reavalie a validade do áudio apresentado no processo anterior.

Camilo cerrou os punhos, e Sara não se mexeu, mas a atenção dela ficou mais rígida.

— Em que sentido? — perguntou o juiz, e o advogado se moveu devagar diante do estrado.

O advogado de Brenda pediu pra exibir novamente o vídeo que já tinha sido apresentado no processo original. Todos reconheceram as imagens, mas dessa vez os diálogos eram diferentes. As frases pareciam ter sido reorganizadas, editadas, alteradas com a intenção evidente de mudar o contexto.

— Vivemos numa era em que qualquer arquivo digital pode ser alterado. Com ferramentas acessíveis, até domésticas, é possível modificar vozes, inserir frases, recriar timbres. A inteligência artificial mudou as regras do jogo.

Um murmúrio percorreu a sala e Seija sentiu o estômago apertar.

— O senhor está afirmando que o áudio foi manipulado? — perguntou o juiz.

— Estou dizendo que pode ter sido. E enquanto essa possibilidade real existir, não podemos considerá-lo uma prova conclusiva.

Sara se levantou como uma mola.

— Objeção! A defesa não apresentou nenhuma perícia que comprove qualquer alteração. Está apelando a uma hipótese geral sobre tecnologia pra semear dúvida.

O advogado sorriu levemente.

— Não preciso provar que foi alterado. Só que poderia ter sido. Isso basta pra introduzir dúvida razoável.

Camilo cerrou a mandíbula.

Sara o olhou de soslaio e voltou ao juiz.

— Se seguirmos essa lógica, nenhuma prova digital teria valor. Fotografias, e-mails, gravações de câmeras de segurança… tudo poderia "ter sido alterado". A justiça não pode operar com base em suposições abstratas.

— Não são abstratas — replicou o advogado. — São possibilidades técnicas reais.

— Possibilidades — repetiu Sara. — Não fatos. Esse vídeo já foi revisado por peritos especializados.

Mas ao que parecia isso não importava pro novo advogado de Brenda, e quando ele começou a falar sobre a possibilidade de anular as provas e libertar a cliente, Camilo fechou os olhos por um segundo — tempo suficiente pra o melhor amigo entender que aquilo o estava atingindo mais do que aparentava.

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