Eduardo
Já era tarde da noite quando Eduardo Monteiro encerrou a última reunião do dia, os diretores saiam visivelmente exaustos, menos Eduardo.
A sala era iluminada apenas pela luz da cidade que se espalhava pelas janelas de vidro. Sobre a mesa ficou apenas um pasta com o nome “Clara Vasconcelos”
Eduardo se recostou na cadeira. Por um instante, a frieza calculista deu lugar a uma lembrança distante. Fechou os olhos, como se buscasse um eco do passado.
A música. O salão iluminado. O piano preenchendo o ar com notas suaves e, ao mesmo tempo, arrebatadoras.
E então a viu.
A jovem pianista de olhos cor de mel brilhantes. Os cabelos no mesmo tom presos em um coque baixo elegante, algumas mechas soltas emoldurando o rosto. O vestido branco longo, simples, mas sofisticado que a deixava radiante, como se tivesse luz própria.
Ela tocava com a alma e ele jamais esqueceu a emoção incômoda que sentiu, porque acreditava estar imune a qualquer encanto.
Agora, o destino a colocou de volta em seu caminho.
— Helena Vasconcelos… — murmurou, experimentando a estranheza de pronunciar o nome em voz alta.
O Grupo Monteiro enfrentava pressões de todos os lados: acionistas exigindo estabilidade, colunas sociais questionando sua vida pessoal e, como se não bastasse, Viviane Teles, uma sombra do passado disposta a reivindicar o que um dia fora dela.
Era claro o que precisava ser feito. Um casamento traria a aparência de equilíbrio que a família Monteiro necessitava, e afastaria de vez Viviane de sua vida. E, ao mesmo tempo, resolveria as dívidas da família Vasconcelos.
Consciente. Conveniente. Impecável.
Eduardo suspirou, os olhos frios de quem estava prestes a fazer mais um negócio.
Mas, ao fundo de seus pensamentos, uma voz silenciosa sussurrava outra verdade: não era coincidência que Helena Vasconcelos tivesse surgido novamente em sua vida e uma decisão foi tomada.
Na frieza de uma sala iluminada por arranha-céus, um contrato começou a ser escrito.
*****
Clara Vasconcelos
Na manhã seguinte, Clara estava no escritório da empresa, com o olhar fixo e angustiado sobre os papéis espalhados à sua frente.
A folha de pagamento daquele mês parecia pesar mais do que todas as outras, a contabilidade fora clara: não haveria recursos suficientes para quitar os salários em dia.
Abalada e sobrecarregada, Clara sentiu que deveria desistir de tudo. Não tinha forças para continuar lutando, ela nunca esteve à frente dos negócios da família, mas após a morte do marido, ela e Helena foram lançadas, sem preparo, à responsabilidade de manter a empresa de pé e estavam falhando.
Uma batida na porta a tirou de seu devaneio, Célia, a secretária a mais de quinze anos entrou com uma expressão de apreensão.
— Clara, — Disse ela em voz baixa, não havia formalidade entre as duas, era mais uma relação de amizade que patroa e empregada.
— O que foi Célia? — O semblante abatido de Clara fez o olhar de Célia entristecer.
— Tem um homem querendo falar com você. Ele disse que se chama Eduardo Monteiro.
Clara franziu a testa intrigada. Não podia ser quem ela pensava.
— Tem certeza que é esse o nome?
— Absoluta… E é um homem muito bonito, diria até absurdamente lindo. — Célia sorriu.
— Peça para ele entrar.
Clara ficou olhando para a porta com uma sensação estranha. O que um homem como Eduardo Monteiro teria para falar com ela? Qual o interesse dele em uma pequena empresa de rochas ornamentais? E… praticamente falida.
*****
Instantes depois da saída de Célia, a porta tornou a abrir. Um homem alto entrou, de porte atlético, pele levemente bronzeada. Tinha olhos e cabelos escuros e um rosto difícil de esquecer, maxilar quadrado, traços marcantes, quase esculpidos. Mas era o olhar que mais impressionava: profundo, penetrante, como se fosse capaz de atravessar qualquer defesa. Vestia um impecável terno de três peças, que só reforçava sua presença imponente.
Clara se levantou imediatamente, impactada.
O homem percorreu o escritório com um olhar rápido. O ambiente era pequeno, de mobília simples, mas de um raro bom gosto. Clara, manteve a cordialidade e estendeu a mão.

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