Eduardo e Helena
O escritório do presidente do Grupo Monteiro era tão frio e imponente quanto o homem que o comandava. As vidraças imensas exibiam o horizonte da cidade em um cinza metálico, e o silêncio absoluto tornava o ambiente ainda mais opressor.
Helena entrou hesitante, seu coração batia descompassado, mas ela ergueu o queixo, tentando manter certa dignidade.
Diante dela estava ele: Eduardo Monteiro.
O terno impecavelmente alinhado, o semblante austero, o olhar penetrante que parecia atravessar camadas de pele e da alma. Tudo nele transbordava autoridade, controle e uma distância quase intransponível.
Os olhos de Helena se encontraram com os dele por um instante. Bastou aquele breve contato para um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Por um breve momento, os dois ficaram apenas observando um ao outro.
Helena buscou na lembrança, em um passado distante ou recente se o reconhecia de algum lugar, afinal um homem como ele dificilmente passava despercebido por qualquer olhar. Por mais que tentasse, não conseguia nenhuma lembrança.
Eduardo percebeu o olhar de dúvida dela, como se tentasse reconhecê-lo, e percebeu que ela não se recordava dele.
“Natural”
Pensou ele, naquela noite, ele ficou sentado o tempo todo perto do bar, em meio a penumbra para não ser visto e receber os olhares piedosos das pessoas.
— Senhorita Vasconcelos — disse Eduardo, em tom firme e baixo, sem se levantar. — Sente-se.
Helena obedeceu, mantendo a postura ereta, a longa mesa entre eles era como um muro invisível, separando seus mundos.
— Imagino que sua mãe já lhe tenha explicado os termos — prosseguiu ele, empurrando uma pasta em sua direção com um leve movimento dos dedos. — Um casamento. Sem romantismos, sem ilusões. Apenas um acordo. Em troca, suas dívidas serão quitadas.
Helena encarou a pasta fechada, mas não a tocou. Respirou fundo, reunindo forças, e respondeu com voz firme:
— Sim, senhor Monteiro. Sei exatamente dos termos deste contrato.
Um breve silêncio se instalou. O olhar de Eduardo brilhou de algo que Helena não soube interpretar.
— Então está de acordo? — perguntou, inclinando-se levemente para frente.
Helena manteve o olhar fixo, apesar do coração acelerado ela desviou o olhar.
— Preciso avaliar as opções.
— Imagino que não são muitas.
O sorriso cínico dele fez o sangue de Helena ferver.
— Se vou casar com um estranho, preciso pelo menos o conhecer melhor.
— Justo. — A voz era cortante. — Agora que nos conhecemos, já avaliou minha pessoa, imagino que eu não seja de jogar fora.
Helena corou violentamente.
— Não é o que o senhor está pensando.
— Pouco me importa qual a opinião da senhorita sobre mim. — Frio e impessoal, Eduardo continuou. — A senhorita aceita ou não. Sou um homem muito ocupado.
Helena ficou indignada com a frieza e arrogância daquele homem e por um momento cogitou a ideia de dizer não, mas o olhar de desafio dele a instigou a enfrentá-lo.
— Eu aceito. — Disse firme o encarando com olhar decidido.
— Muito bem — murmurou, recostando-se na cadeira, os olhos fixos nela. — A senhorita é mesmo corajosa.
A frase soou como uma provocação. Helena sentiu o sangue ferver, mas não se deixou intimidar.
— Para casar com o senhor é preciso mesmo muita coragem e desespero.
Eduardo esboçou um sorriso gélido, a curva mínima nos lábios e bateu levemente os dedos sobre a mesa antes de acrescentar:
— Muito bem, alguma dúvida? Alguma pergunta?
Helena sentiu o rosto ruborizar. Mordeu o lábio, abaixou os olhos e, com a voz vacilante, arriscou:
— Sim… Eu gostaria de saber se eu… nós… — As palavras se perderam no ar.
Eduardo inclinou-se para frente, apoiando os braços sobre a mesa. A distância entre eles diminuiu, mas a pressão no ambiente se multiplicou.
— Então sua mãe perderá a casa, os bens, e provavelmente a dignidade. — Sua voz não subiu de tom, mas cada palavra pesou como sentença. — A escolha é toda sua, senhorita Vasconcelos.
Helena sentiu a garganta secar. Parte dela queria gritar, acusá-lo de crueldade. Mas outra parte, mais fria, sabia que não havia alternativa.
Ela fechou os olhos por um instante, como quem faz uma prece silenciosa, e depois os abriu novamente, determinada.
— Muito bem — disse, com firmeza. — Onde eu assino?
Eduardo a encarou por longos segundos, e então empurrou a pasta de volta para ela, indicando a última página.
— Aqui. — A ponta de um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios.
Helena olhou para a linha vazia que esperava sua assinatura, sua mão vacilou por um segundo sobre a caneta. Por um instante, pensou em largá-la e fugir, mas a lembrança de sua mãe sustentou sua decisão. Então, decidida, assinou.
Eduardo a acompanhou enquanto ela assinava assim que ela terminou, ele recolheu a pasta e a fechou com calma.
— Agora é oficial. — Sua voz saiu baixa, mas firme, carregada de posse. — A partir de hoje, a senhorita Vasconcelos já não existe. Bem-vinda, futura senhora Monteiro.
Helena ergueu os olhos e sustentou o olhar dele, sentindo o peso de cada palavra. Ela respirou fundo e, antes que o silêncio se prolongasse levantou e estendeu a mão na direção dele.
— Que seja, então, um acordo — declarou, mantendo o olhar fixo no dele. — Fechado como qualquer outro negócio.
Eduardo levantou lentamente, ergueu a mão e apertou a dela. O toque foi firme, quase desafiador, como se ambos medissem forças em silêncio.
— Um negócio, sim. — murmurou Eduardo, com um leve sorriso enigmático.
Helena não desviou o olhar, mesmo sentindo um frio percorrer-lhe a espinha. Soltou a mão dele com a mesma determinação com que a estendeu, girou sobre os calcanhares e caminhou em direção à porta.
Eduardo permaneceu de pé, acompanhando-a com os olhos até o último instante. Quando a porta se fechou atrás dela, ele recostou-se na cadeira com um brilho indecifrável em seu olhar.
Enquanto isso, no corredor, Helena caminhava com passos firmes, mas por dentro sentia a pressão de um peso invisível sobre os ombros. Sabia que não havia retorno. O contrato estava assinado.

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