Helena percebeu no mesmo instante.
— Mãe! — chamou, correndo até ela.
Segurou-a antes que perdesse o equilíbrio e a conduziu de volta à cadeira. As mãos de Clara estavam frias, úmidas, e seus olhos se fecharam por um instante mais longo do que o normal.
— O que aconteceu? — a voz de Helena saiu trêmula, carregada de medo.
— Não é nada… — Clara tentou minimizar, forçando um sorriso frágil. — Já está passando.
Mas não estava. A palidez denunciava. O cansaço também.
Helena não insistiu com palavras de imediato. Apenas se afastou por um segundo, pegou um copo de água no aparador e voltou com cuidado, levando-o até os lábios da mãe.
— Beba devagar.
Clara obedeceu, em pequenos goles, como se cada movimento exigisse esforço.
— Mãe… isso não é normal — disse Helena, mais firme agora. — Essas tonturas… a senhora precisa ir ao médico.
Clara suspirou, recostando-se na cadeira.
— Eu sei… — admitiu, em voz baixa. — Mas fazia tempo que não sentia nada assim.
Helena segurou suas mãos com delicadeza, como se quisesse ancorá-la ali.
— Justamente por isso. Não dá mais pra ignorar.
Houve um silêncio breve, carregado de tudo o que nenhuma das duas dizia.
Desde a morte do pai, Clara havia se tornado uma fortaleza. Trabalhou sem descanso, enfrentou dívidas, tentando salvar o que restava da empresa… mas, no processo, foi se sobrecarregando. Alimentava-se mal, dormia pouco, emagreceu consideravelmente. Sempre dizia que estava bem, mesmo quando não estava.
E agora… já não havia mais como esconder.
Clara apertou levemente as mãos da filha e esboçou um sorriso cansado, porém sincero.
— Está bem… — cedeu. — Acho que já deu de bancar a durona, não é?
Helena sorriu de volta, aliviada, mas com os olhos ainda úmidos.
— Já passou da hora.
As duas permaneceram assim por alguns segundos, em silêncio, apenas se olhando, mãe e filha, cúmplices na dor e na força.
Então Helena respirou fundo, como quem reúne coragem.
— Eu vou marcar a consulta hoje mesmo.
Clara assentiu, desta vez sem resistência. O momento de despedida, que antes parecia comum, agora carregava um peso diferente.
Helena levantou-se devagar, mas antes de se afastar, inclinou-se e envolveu a mãe em um abraço apertado.
— Se cuida… — murmurou Helena, com a voz embargada. — Promete?
Clara acariciou os cabelos da filha, com ternura.
— Prometo.
Helena se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos da mãe, como se quisesse gravar aquele instante.
Deu alguns passos em direção à porta, então parou, olhou para trás mais uma vez… e encontrou Clara observando-a, com aquele mesmo olhar de amor que sempre a sustentou.
Helena sorriu e saiu. Ao passar por Célia pediu para ficar de olho na mãe, explicou o que havia acontecido e se acontece qualquer coisa era pra ligar pra ela.
— Não se preocupe, Helena. Qualquer coisa te ligo.
Do lado de fora, Xavier já a esperava ao entrar no carro.
*****
Eduardo
Longe dali, Eduardo acabava de sair de uma reunião exaustiva.
As negociações se arrastavam há mais tempo do que ele havia previsto. A fusão era inevitável, disso ele tinha certeza, mas os acionistas da outra parte insistiam em extrair vantagens além do razoável.
Eduardo, no entanto, não recuava um centímetro. Pelo contrário: a cada nova rodada, tornava sua proposta ainda mais rígida. Sua reputação de negociador implacável não apenas se mantinha, se consolidava.
Sob sua gestão, o conglomerado do Grupo Monteiro continuava em constante expansão.
Tudo começou com o avô, de forma modesta, à frente de um pequeno comércio. Com visão e ousadia, ele decidiu fabricar os próprios produtos, dando início a uma transformação que mudaria o destino da família. Ao longo dos anos, adquiriu pequenas indústrias do setor alimentício, unificando-as sob uma única marca e construindo uma base sólida.

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