Helena
Na manhã seguinte, Helena acordou mais tarde. A noite não foi boa, demorou a dormir e, quando finalmente o sono veio, não foi tranquilo.
Levantou-se ainda sentindo o corpo pesado, como se não tivesse descansado de verdade. Após tomar um banho rápido, se vestiu e saiu do quarto.
A casa já estava desperta. A luz da manhã invadia os corredores amplos, destacando a elegância fria de cada detalhe. Helena seguiu em direção à cozinha, guiada mais pelo instinto do que pela fome.
Quando se aproximou, vozes baixas a fizeram reduzir o passo.
— Onde já se viu… recém-casados e dormirem em quartos separados… — comentou Maria, em tom de reprovação.
— Ah, minha filha… rico é cheio dessas coisas. — respondeu Neusa, com um leve riso. — Com tanto quarto nessa casa, cada um pode dormir cada dia em um diferente se quiser.
Helena parou antes de cruzar a porta. Sentiu o estômago apertar.
— Mas que é estranho, é. — continuou Maria. — Casamento assim não dura.
— Shhh! Fala baixo, mulher! Vai que alguém ouve…
— Ué, e eu tô mentindo?
— Estão, sim.
A voz firme de Olga cortou a conversa como uma lâmina. As duas se viraram imediatamente, assustadas.
— Senhora Olga! — disseram juntas, visivelmente constrangidas.
A governanta entrou na cozinha com postura impecável, o olhar severo alternando entre as duas.
— Já deveriam saber que não se comenta a vida dos patrões. — disse, em tom controlado, mas duro. — Muito menos fazer julgamentos sobre aquilo que não lhes dizem respeito.
— Desculpe, senhora Olga… — murmurou Maria, abaixando a cabeça.
— Não vai acontecer de novo. — completou Neusa, apressada.
— Eu espero que não. — respondeu Olga, sem suavizar a expressão. — Nesta casa, discrição não é um favor. É uma obrigação.
O silêncio que se seguiu foi imediato e pesado. Helena então decidiu entrar, revelando sua presença.
As três se viraram para ela.
— Senhora… — disse a senhora Olga, retomando a compostura com elegância. — Já está acordada. Deseja que preparem o café?
Helena sustentou o olhar dela por um instante, depois assentiu levemente.
— Sim… obrigada.
— Pode deixar. — respondeu Olga, já se movimentando com eficiência.
Maria e Neusa permaneceram imóveis, visivelmente desconfortáveis. Nenhuma delas ousava encarar Helena.
Por um momento, Helena pensou em dizer algo, em aliviar a tensão, fingir que não tinha ouvido.
Mas não disse nada. Apenas se aproximou da bancada da ilha e se sentou.
Olga imediatamente dispensou as empregadas para que fosse cuidar do serviço da casa, depois da saída de Maria e Neuza, ela se voltou para Helena.
— A senhora não prefere que sirva o café na sala de jantar.
— Não, aqui está ótimo.
Olga apenas lhe deu um leve sorriso e voltou-se para um armário para pegar uma composição de xícara.
Enquanto Olga organizava o café da manhã, o som dos utensílios sendo dispostos preenchia o silêncio constrangedor.
Helena olhou ao redor. Aquela casa continuava impecável, grandiosa… e estranhamente impessoal.
E, pela primeira vez, a sensação se instalou com clareza dolorosa: Ela não estava apenas em um casamento por contrato, estava vivendo dentro de uma encenação onde até os sentimentos precisavam permanecer em silêncio.
A senhora Olga aproximou-se com a bandeja, depositando à frente de Helena uma xícara de café, bolo, torradas e algumas frutas já cortadas com perfeição.
— O senhor Eduardo saiu cedo hoje. — disse, em tom baixo e discreto, como se a informação fosse apenas um detalhe. — Não quis incomodar a senhora.
Helena envolveu a xícara com as mãos, buscando no calor um certo conforto.
— Sim… ele foi viajar. — respondeu, tentando parecer tranquila, se bem que ela não sabia que ele sairia tão cedo. — Negócios.
Olga a observou por um breve instante.
Não houve surpresa em seu olhar. Nem julgamento. Apenas uma compreensão silenciosa, quase sutil demais para ser notada, como se reconhecesse, sem que nada fosse dito, que aquele não era um casamento comum.
— Entendo. — limitou-se a dizer.
Helena assentiu, levando o café aos lábios.
E, naquele pequeno gesto de silêncio compartilhado, havia mais entendimento do que qualquer explicação poderia oferecer.
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