Na Nexora Intelligent, Bernardo acabava de desligar o telefone. Permaneceu alguns segundos olhando para a tela do aparelho, a testa franzida em uma expressão rara de surpresa.
Murilo, assistente pessoal de Eduardo Monteiro, acabara de marcar uma reunião para aquela mesma manhã.
Desde que a Nexora implantara a nova arquitetura de segurança no Grupo Monteiro, os contatos entre as empresas aconteciam quase sempre por meio dos gestores de tecnologia. Quando Murilo ligava diretamente, significava que o assunto havia ultrapassado a esfera técnica.
Bernardo levantou-se imediatamente.
Cruzou o corredor principal da empresa enquanto funcionários caminhavam entre salas envidraçadas. Monitores exibiam mapas de tráfego de rede, indicadores de ameaças em tempo real e dashboards com milhares de eventos sendo analisados pelos algoritmos de inteligência artificial desenvolvidos pela Nexora.
No centro da operação funcionava o SOC — o Centro de Operações de Segurança — onde analistas monitoravam continuamente os ambientes digitais dos principais clientes da empresa.
Bernardo entrou na ala de desenvolvimento avançado e parou diante da sala de Gabriella. A porta de vidro permitia vê-la concentrada diante de cinco monitores, ela parecia completamente alheia ao mundo.
Bernardo bateu levemente na porta e Gabriella ergueu os olhos por trás dos grossos óculos de aro redondo.
Assim que o viu, suas bochechas ganharam um tom rosado. Acontecia todas as vezes que eles se encontravam.
Bernardo sorriu sem conseguir evitar, achava adorável aquela cor rosada e os olhos brilhantes dela, mas não era algo exclusivo para ele.
Gabriella simplesmente era tímida, mais de uma vez ele tentara convidá-la para jantar e ela sempre recusava e inventava as mesmas desculpas.
— Estou terminando uma pesquisa.
Ou...
— Preciso revisar esse algoritmo.
No fim, acabavam pedindo comida por aplicativo e jantando diante dos computadores enquanto discutiam arquitetura de software, criptografia ou inteligência artificial.
Era, curiosamente, o encontro mais próximo que Bernardo conseguia arrancar dela.
— Oi. — disse ele, entrando.
— Oi.
A resposta veio baixa, quase num sussurro, mas bastou observar a expressão dele para o sorriso desaparecer.
— Aconteceu alguma coisa?
— Acho que aconteceu algo no Grupo Monteiro.
Gabriella apenas assentiu.
— Eu sei.
Bernardo arqueou uma sobrancelha.
— Você sabe?
Ela girou lentamente a cadeira para uma das telas e com alguns cliques, abriu um painel contendo registros criptografados.
— Detectamos uma tentativa de invasão há pouco mais de quarenta minutos.
Bernardo aproximou-se.
— E você não me avisou?
— Eu estava terminando de avaliar o sistema para poder te contar. — Ela continuou observando os registros. — O novo sistema implantado depois da primeira invasão precisava ser testado em uma situação real.
Bernardo cruzou os braços.
— Você deixou acontecer de propósito?
— Apenas observei. — Ela respondeu sem desviar os olhos da tela. — Há uma grande diferença. — Ela ampliou uma sequência de eventos. — O firewall adaptativo respondeu corretamente. O sistema de detecção comportamental identificou a movimentação lateral, os honeypots atraíram parte dos invasores. A equipe interna do Grupo Monteiro iniciou o protocolo de contenção exatamente como planejado.
Bernardo respirou mais aliviado.
— Então eles conseguiram.
Gabriella fez uma pequena careta.
— De certa forma sim.
Ela abriu outro registro. Na tela surgiu uma assinatura digital composta por poucos caracteres. Os olhos de Bernardo se estreitaram.
— Não...
Gabriella soltou um discreto suspiro.
— Sim.
— Leon Vargas.
Por um instante, ela ficou em silêncio e depois cruzou os braços.
— Ele entrou na rede antes mesmo de nossos algoritmos preverem a rota final dos invasores.

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