Angelina o encarou, sem acreditar.
— Você vai me abandonar?
Henrique sentiu o peito apertar.
— Eu preciso ir. Seu julgamento não deve demorar. O processo está andando rápido, e seu advogado disse que as chances de conseguir uma pena leve são praticamente nulas.
Dizer aquilo em voz alta tornou tudo mais real.
Mesmo que ainda nutrisse sentimentos por ela, Henrique não podia continuar esperando. Não podia passar anos preso à esperança de que Angelina sairia da prisão para se transformar numa mulher completamente da que conhecera como Viviane.
— Eu sei — respondeu ela, resignada.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
— Sua obsessão por Eduardo foi sua ruína.
Angelina abaixou a cabeça. Não havia mais raiva em seu olhar, apenas cansaço.
Henrique havia tentado alertá-la várias vezes. Pediu que os dois abandonassem aquela vida, que se afastasse de Eduardo, que recomeçassem uma nova vida juntos com o dinheiro que haviam conseguido. Poderiam viver bem, teriam uma vida confortável, sem muito luxo, mas longe de problemas.
Mas ela nunca quis uma vida comum. Agora, porém, era justamente isso que desejava.
— Eu fui uma tola por não ter escutado você naquela época — confessou. — Ela ergueu os olhos para Henrique. — Só que eu nunca quis uma vida comum. — Fez uma pausa. — Hoje, o que mais desejo é ter tido essa vida comum.
Henrique a observou em silêncio, jamais imaginara ouvir Angelina reconhecer um erro.
Aquela mulher, que durante tanto tempo parecera incapaz de admitir qualquer culpa, agora estava diante dele derrotada pelas próprias escolhas que fizera na vida e suas consequências.
— Eu guardei seu dinheiro e suas joias em um lugar seguro. Quando sair daqui, você terá como se manter.
Angelina franziu a testa.
Henrique era diferente dela. Os dois podiam agir de maneira semelhante e até justificar suas escolhas pelas mesmas razões, mas havia algo nele que lhe faltava.
Talvez fosse empatia ou simplesmente a preocupação genuína com as mulheres com quem se envolvia.
Henrique nunca falara mal de nenhuma delas. Pelo contrário, sempre demonstrara preocupação quanto aos sentimentos delas. Angelina costumava achar aquilo uma fraqueza. Muitas vezes chegara a considerá-lo um idiota por se importar tanto.
Agora, pela primeira vez, percebia que talvez aquilo não fosse fraqueza alguma.
— O que pretende fazer?
— Tenho um bom dinheiro guardado, alguns imóveis e ações de algumas empresas. Não estou rico, mas tenho o suficiente para me manter por bastante tempo. Pretendo abrir um negócio próprio.
Angelina sorriu amargamente.
— Talvez você consiga, finalmente, ter a vida que queria.
Henrique não respondeu.
Sentiu vontade de abraçá-la uma última vez. Sabia que não podia. Ainda assim, impulsivamente, ergueu uma das mãos sobre a mesa, querendo apenas tocar a dela pela última vez.
Angelina olhou para a mão dele.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu, ela não tentou tocá-lo. A distância entre os dois parecia maior do que aquela mesa.
Angelina respirou fundo e se levantou.
— Adeus, Henrique.
Ele ergueu os olhos para ela.
— Espero que seja feliz — continuou Angelina. — E que encontre uma boa mulher. Uma que realmente faça você feliz.
Henrique abriu a boca para responder, mas não encontrou palavras.
Angelina virou-se antes que ele pudesse dizer qualquer coisa e caminhou em passos rápidos até o guarda que a aguardava. Não olhou para trás.
A porta de ferro se abriu e, poucos segundos depois, fechou-se atrás dela.
Henrique permaneceu sentado por mais algum tempo, olhando para a porta. Sabia que provavelmente nunca mais a veria.
Talvez aquela fosse a primeira decisão sensata que Angelina tomara em muitos anos.
Henrique levantou-se lentamente e deixou a cadeia com passos lentos. Do lado de fora, o ar parecia diferente.

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