No dia seguinte, antes mesmo de chegar à cozinha, Helena ouviu mais um comentário vindo de Maria e Neusa.
— Você não acha estranho o senhor Eduardo ficar fora por tanto tempo? — comentou Maria. — Eles mal acabaram de casar…
— Pois é… — concordou Neusa, em tom mais baixo. — Esse casamento assim, às pressas… será que a patroa…
— Parem com isso agora. — a voz firme de Olga cortou a conversa. — Se eu ouvir mais comentários desse tipo, vou recomendar a demissão das duas.
Houve um breve silêncio.
— Senhora Olga… — arriscou Maria — não me diga que a senhora não acha esse casamento estranho.
Olga a encarou com severidade.
— O senhor Eduardo é um homem muito ocupado. Sempre viajou bastante. Agora façam o favor de parar de falar e vão trabalhar.
— Tá bom… — murmurou Maria.
Foi então que Helena decidiu entrar, mas, dessa vez, com uma postura diferente.
— Bom dia! — disse, radiante.
As duas se viraram imediatamente.
— Bom dia, senhora! — responderam Maria e Neusa ao mesmo tempo, com a expressão de quem havia sido pega em flagrante.
— Senhora Helena, vejo que acordou bem disposta hoje. — comentou Olga, com um leve sorriso.
Helena abriu um sorriso ainda mais luminoso.
— Eduardo retorna hoje… e eu mesma quero preparar o jantar para o meu esposo.
— Fico feliz em ouvir isso. — respondeu Olga, aprovando com um aceno discreto.
Helena então voltou o olhar para Maria e Neusa, que ainda pareciam constrangidas.
— Por favor, arrumem bem o quarto do meu marido. Quero tudo impecável. Roupas limpas e perfumadas.
— Claro, senhora. — responderam, quase em uníssono.
— Ah, e peçam ao João algumas flores para colocar na casa e no quarto do meu esposo.
— Sim, senhora.
As duas saíram apressadas, visivelmente aliviadas por aparentemente não serem pegas no flagra.
Helena voltou-se para Olga.
— Quando o chef chegar, diga a ele que hoje eu mesma vou fazer o jantar. Vou deixar uma lista com o que preciso é só ele preparar o mise en place.
— Perfeitamente, senhora. Tenho certeza de que o senhor Eduardo ficará muito satisfeito.
Helena sorriu e se acomodou na bancada. Gostava de tomar café ali, naquele espaço mais íntimo, onde frequentemente conversava com Olga.
Sabia que ela trabalhava com a família Monteiro desde que Eduardo era criança e que ele havia pedido para ela vir trabalhar para ele depois que a casa ficou pronta.
“Eu vi esse menino crescer”, ela já havia dito certa vez, com um sorriso carregado de saudade.
— Como ele era? — perguntou Helena, apoiando o queixo na mão, curiosa.
Olga pareceu suavizar por um instante.
— Muito ativo e inteligente. — respondeu. — Aprontava bastante… mas era uma criança feliz.
Helena sorriu, imaginando.
— E o irmão dele?

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