— Helena… — disse ele, em tom baixo, quase um aviso. — Você pode acabar acreditando nesse papel.
Ela não recuou.
— Olha, estou fazendo o melhor para termos uma boa convivência e parecer convincente. — Ela olhou nos olhos dele, não elevou a voz e continuou firme. — Agora se você acha que é exagero, que tal vivermos como dois estranhos nessa casa por três anos? Que tal nem nos falarmos e nem sentarmos à mesa para uma simples refeição?
Os olhos dele escureceram com a provocação.
Por um instante, Eduardo pareceu prestes a responder com dureza, mas algo mudou. Seu olhar desceu involuntariamente pelo rosto dela, demorando-se em seus lábios, depois voltou aos olhos.
A proximidade entre eles agora era perigosa. Bastava um pequeno movimento para que seus corpos se tocassem.
Helena sentiu o coração acelerar, odiando o efeito que ele tinha sobre ela. Tentou desviar o olhar, mas não conseguiu.
— É melhor você tomar um banho enquanto termino o jantar — disse, a voz trêmula e mais baixa, quebrando o momento.
Eduardo não se afastou imediatamente.
— Talvez seja melhor mesmo. — A voz dele saiu com timbre mais grave e por um momento ele inclinou levemente a cabeça ficando mais próximo do rosto dela e então, ele virou e se afastou.
Ela voltou-se para o fogão, com as mãos trêmulas e o coração descompassado, voltou a se concentrar na finalização dos últimos detalhes da comida, enquanto Eduardo se afastava em direção ao segundo andar.
Quando Eduardo retornou, encontrou a mesa impecável.
À luz suave das velas, os detalhes pareciam ainda mais cuidadosamente pensados, a louça, os talheres, as taças, tudo disposto com um esmero que não passava despercebido. Eduardo puxou a cadeira, observando cada detalhe com um olhar mais atento do que gostaria de admitir.
Helena surgiu logo depois, trazendo a travessa principal. O aroma se espalhou pelo ambiente, quente e acolhedor.
— Espero que goste — disse ela, evitando encará-lo diretamente enquanto servia.
Eduardo apoiou o braço na mesa, observando-a.
— Você realmente fez tudo isso sozinha?
— Fiz. — Ela deu de ombros, tentando soar indiferente. — Não é nada demais.
Ele soltou um leve sopro pelo nariz, quase um riso contido.
— Para quem dizia que só queria evitar comentários… isso parece mais do que o mínimo.
Helena ergueu o olhar, firme.
— Nem tudo precisa ter uma segunda intenção, Eduardo.
— Com você, eu ainda não tenho tanta certeza.
Ela respirou fundo, contendo a resposta mais afiada que queria dar.
Sentaram-se. Eduardo pegou um vinho e serviu primeiro a taça de Helena e depois a dele. Dessa vez não brindaram.
Por alguns minutos, o silêncio predominou, quebrado apenas pelo som discreto dos talheres. Eduardo levou a primeira garfada à boca… e parou por um instante.
Helena percebeu.
— Está ruim?
Ele a olhou, sustentando o suspense por mais um segundo do que o necessário.
— Não. — Outra pausa. — Está muito bom.
Helena piscou, surpresa, não apenas pelo elogio, mas pela forma direta a até suave como ele foi dito.

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