Eduardo permaneceu sentado por alguns segundos, olhando fixamente para a mesa, como se esperasse que o incômodo simplesmente passasse.
Mas não passou.
O silêncio da casa, antes confortável, agora parecia pesado demais.
Num impulso, ele empurrou a cadeira para trás e se levantou. Seus passos foram firmes, quase apressados, como se pensar demais o fizesse desistir.
Ao chegar à cozinha, encontrou Helena de costas, diante da pia. Ela acabara de colocar o prato com cuidado sob a bancada e manteve as duas mãos apoiadas sobre o granito.
Por um instante, ele apenas a observou. Havia algo ali que ele começava a entender… tarde demais, talvez.
Helena se virou ao sentir uma presença e se surpreendeu ao vê-lo ali.
— Eduardo…?
Ele hesitou por um segundo. Não era comum para ele, mas, ainda assim, falou:
— Eu… — passou a mão pela nuca, buscando as palavras — sinto muito, você se esforçou e não soube retribuir.
Helena piscou, pega de surpresa. Não pela frase… mas pelo fato de ele tê-la dito.
— Não precisava…
— Precisava, sim. — interrompeu, mais baixo agora. — Eu fui injusto com você.
O silêncio entre eles já não era o mesmo de antes.
Helena o observava com atenção, como se tentasse entender se aquilo era real… ou apenas momentâneo.
— Eu não quis dizer que… — ele respirou fundo — que o que você fez não tem valor.
Os olhos dela suavizaram, ainda que guardassem resquícios da dor.
— Eu sei o que aceitei, Eduardo — disse com calma. — Mas isso não significa que eu precise tratar como se… nada importasse.
A sinceridade dela não tinha ataque. Só verdade. E aquilo o atingiu de forma direta. Eduardo deu um passo à frente e depois outro.
Sem perceber, a distância entre eles diminuiu.
Helena sentiu a respiração falhar por um segundo, ele estava perto demais. E, ainda assim… não o suficiente.
Os olhos deles se encontraram e permaneceram ali. Presos.
Havia algo diferente naquele instante, algo que não cabia no acordo, que não seguia regras, que não obedecia limites.
Eduardo ergueu a mão, quase sem perceber, como se fosse tocar o rosto dela… mas hesitou no meio do caminho.
Helena não se afastou. Pelo contrário, ela se manteve ali esperando. O ar entre os dois parecia mais denso, carregado de algo que nenhum deles ousava dizer.
O olhar de Eduardo desceu por um instante até os lábios dela… e voltou. A proximidade agora era perigosa e foi exatamente isso que o fez recuar.
Como se despertasse de repente. Ele abaixou a mão lentamente, dando um passo para trás.
— Isso… — começou, mas parou, buscando firmeza — não muda nada. — A frase soou mais dura do que ele pretendia.
Helena assentiu, mas, dessa vez, não abaixou o olhar.
— Eu sei — respondeu, com uma serenidade que escondia mais do que revelava.
Eduardo assentiu de leve, como se encerrasse algo que nem chegou a começar.
— Boa noite, Helena.
— Boa noite, Eduardo.
Ele se virou e saiu.
Helena permaneceu ali, imóvel por alguns segundos, encarando o vazio à sua frente. Então soltou o ar que ficou preso, levou a mão ao peito. O coração ainda acelerado.
Porque, apesar das palavras… ela sabia que algo estava acontecendo e se não quisesse sair ferida, deveria ignorar ou iria se machucar muito.
E os dois sabiam disso.

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