No horário marcado, Helena deixou o quarto já pronta. Eduardo a aguardava na sala, um copo na mão, a postura rígida de quem parecia ter ensaiado a própria indiferença. Ao vê-la, não disse nada, mas o olhar dele a seguiu em silêncio enquanto ela descia as escadas.
Naquela noite, Helena escolheu um vestido preto: simples, elegante, que realçava sua delicadeza sem esforço. Os cabelos presos em um coque baixo, com algumas mechas soltas suavizando o rosto, e a maquiagem leve completavam uma beleza discreta, mas impossível de ignorar.
— Vamos. — A voz dele saiu fria, distante, tão fria quanto sua expressão.
Helena não respondeu. Apenas passou por ele.
Do lado de fora, Nelson já os aguardava. No instante em que se aproximaram do carro, Eduardo, para manter as aparências, pousou a mão de forma suave na parte baixa das costas dela, como se a conduzisse. O gesto foi breve, quase mecânico, mas o calor do toque atravessou o tecido do vestido e a fez estremecer por dentro, despertando uma sensação inesperada… desconcertante.
Helena entrou no carro sem olhar para trás. Eduardo deu a volta e acomodou-se ao seu lado, mas não perto o suficiente. Sentaram-se em extremos opostos, como se houvesse entre eles um acordo silencioso, ou uma barreira invisível que nenhum dos dois estava disposto a atravessar.
Durante todo o trajeto, o silêncio predominou.
Nenhuma palavra foi dita. Apenas a presença um do outro, incômoda… e, de alguma forma, impossível de ignorar.
Ao chegarem à mansão dos Monteiros, foram recebidos pelo mordomo, que os conduziu com discrição até a sala de estar. Assim que cruzaram a porta, Olivia se levantou prontamente, um sorriso iluminando o rosto.
— Chegaram.
Sem hesitar, ela foi direto até Helena e a envolveu em um abraço caloroso, apertado, sincero. Eduardo ficou para trás, esquecido por um instante. Ele arqueou levemente as sobrancelhas, surpreso com a atitude da mãe.
— Querida, que bom vê-la.
Olivia se afastou apenas o suficiente para segurar as mãos de Helena, observando-a com atenção, quase com orgulho.
— Helena, você está deslumbrante. O preto lhe caiu muito bem.
Então, como se lembrasse da presença do filho, voltou-se para ele:
— Não é mesmo, meu filho?
Eduardo sustentou o olhar por um breve segundo. Seus olhos percorreram Helena com discrição, mas sua expressão permaneceu inalterada fechada, impenetrável e fria.
— Está, sim. — respondeu, seco, econômico demais para quem acabara de ser provocado.
Olivia sorriu ainda mais, como se tivesse ouvido muito mais do que aquelas duas palavras permitiam. Havia um brilho sutil em seu olhar, a satisfação de quem percebe o que não é dito, de quem enxerga além da frieza aparente.
E, talvez, de quem sabia exatamente o que o filho tentava esconder.
Depois de cumprimentar Helena, que ficou visivelmente envergonhada, Eduardo inclinou-se para dar um beijo no rosto da mãe. Em seguida, voltou-se para o pai.
Gilberto limitou-se a um leve aceno de cabeça em direção a Helena, que retribuiu com um sorriso tímido.
Pai e filho permaneceram de pé. Eduardo serviu-se de um copo de uísque e posicionou-se ao lado do pai. Em silêncio, os dois passaram a observar Helena e Olivia, sentadas próximas no sofá. A alegria de Olivia era evidente, quase transbordava em cada gesto, em cada palavra.
— Sua mãe está levando esse casamento muito a sério — comentou Gilberto, após um gole, o olhar ainda fixo na cena.
— Esse é justamente o problema — respondeu Eduardo, em tom baixo, carregado de preocupação.
— Ela parece gostar muito dela — acrescentou Gilberto, evitando deliberadamente a palavra “esposa”.
Eduardo não respondeu. A imagem de sua mãe tão envolvida com Helena o deixava desconcertado, como se algo estivesse saindo completamente do seu controle.
A conversa não se estendeu. Logo, o mordomo anunciou que o jantar estava servido.
— Eduardo, venha acompanhar sua esposa.
Olivia se levantou com naturalidade e enlaçou o braço de Gilberto. O gesto era simples, mas para Eduardo, por um breve instante, soube exatamente o que se esperava dele.
Mas não fez.
— Não precisamos dessa encenação, mãe. Helena e eu não somos um casal.
A frase caiu no ambiente como um golpe seco.
Sem olhar para trás, Eduardo virou-se e seguiu em direção à sala de jantar.
O sorriso de Olivia desapareceu lentamente, como uma chama sendo apagada pelo vento. Sentindo a tensão da esposa, Gilberto tocou de leve a mão dela, ainda apoiada em seu braço.
— Ele tem razão — disse, com frieza, sem emoção alguma.
Helena permaneceu sentada.
Por um instante, abaixou a cabeça, escondendo o impacto das palavras que ainda ecoavam dentro dela. O silêncio ao redor parecia mais pesado do que qualquer julgamento.
Então, com um esforço silencioso, ergueu o rosto.
Sorriu para Olivia e Gilberto, um sorriso educado, digno… mas que não alcançava seus olhos.
Levantou-se com elegância, sustentando a própria postura como um escudo, e sem dizer uma única palavra, seguiu na direção por onde Eduardo havia saído de cabeça erguida.
*****
O tilintar suave dos talheres contra a porcelana era o único som que preenchia o espaço. Ainda assim, soava alto quase incômodo.

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