— É impressionante como você consegue agir como se nada tivesse acontecido.
Eduardo pousou a xícara com calma sobre a mesa.
— Talvez porque, de fato, não aconteceu nada de relevante.
Aquilo atingiu.
— Nada relevante? — repetiu, incrédula. — Você me expôs, Eduardo. Trouxe aquela mulher para aquela festa como se eu fosse… uma substituta.
— Você sabia exatamente no que estava se metendo quando aceitou esse casamento — rebateu ele, firme.
— Sabia que era um contrato — corrigiu ela, a voz começando a tremer. — Não que seria humilhada publicamente.
— Está exagerando.
— Estou? — ela deu mais um passo, agora sem recuar. — Porque ontem não pareceu exagero quando você decidiu me “usar” para provar alguma coisa pra ela.
Os olhos dele escureceram levemente.
— Não preciso provar nada pra ninguém.
Helena respirou fundo, sentindo o peito apertar.
— Eu ouvi tudo, Eduardo. Cada comentário, cada insinuação. Eu virei motivo de piada naquela festa.
— Isso faz parte do mundo em que você está agora — disse ele, seco.
— Não. — ela balançou a cabeça, firme. — Isso faz parte do mundo que você criou.
O olhar dele se endureceu.
— E você aceitou fazer parte dele.
A frase veio como uma sentença. Helena sustentou o olhar por um longo segundo.
— E você? — perguntou ela — Também aceitou… só não consegue sair do passado.
O silêncio que se seguiu foi diferente. Perigoso.
— Você não sabe de nada, é melhor não dizer mais nada. — avisou ele.
— Por quê? — insistiu. — Porque dói ouvir?
— Porque não é da sua conta.
Aquilo foi o limite.
— Não é da minha conta? — a voz dela subiu pela primeira vez. — Eu sou sua esposa!
— No papel — cortou ele, frio. — Não confunda as coisas.
Helena ficou imóvel por um segundo, mas dessa vez ela não recuou.
— Não, Eduardo… — disse, mais baixa, mas com uma firmeza nova — quem está confundindo as coisas é você.
Ele a encarou.
— Eu sei exatamente o que isso é — continuou ela. — Um contrato. Um acordo. Sem sentimentos.
Por fim, Eduardo falou:
— Então lembre-se disso.
— Eu lembro o tempo todo.
Ela se virou antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa e saiu.
*****
Nos dias seguintes, Eduardo passou a chegar em casa cada vez mais tarde, como se evitasse qualquer possibilidade de encontro. Quando Helena ouvia o som do carro na garagem, recolhia-se imediatamente ao quarto, buscando refúgio antes mesmo que ele entrasse.
Pela manhã, às vezes era inevitável o encontro no café da manhã, mas era como se fossem estranhos dividindo o mesmo espaço. Mal se falavam ou se olhavam.
Nestas horas, Olga mantinha Maria e Neuza longe da cozinha ou da sala de jantar, as duas eram curiosas e acabavam comentando sobre o casamento dos patrões.
Eduardo sempre terminava primeiro, levantava-se com a mesma postura controlada e saía sem dizer uma única palavra. Helena permanecia por mais alguns minutos, em silêncio, antes de seguir sua própria rotina.
Além das aulas no conservatório, o trabalho no escritório da empresa da mãe exigia mais sua presença. A preocupação com Clara crescia a cada dia. Os resultados dos últimos exames ainda não haviam saído, e a espera tornava tudo mais angustiante.
Helena estava sentada à frente dela, com alguns documentos espalhados entre as duas. Relatórios médicos, pedidos de exames, solicitações recusadas. Papéis demais para algo que deveria ser simples.
— Eles pediram mais um laudo — disse Clara, com a voz controlada, embora o cansaço fosse evidente. — Agora querem um parecer de um oncologista credenciado pelo próprio plano… como se os outros médicos não fossem suficientes.
Helena franziu a testa, pegando um dos papéis e lendo rapidamente.
— Mas você já passou por três especialistas…
— Eu sei. — Clara soltou um suspiro contido, recostando-se na cadeira. — E nenhum conseguiu fechar o diagnóstico. É justamente por isso que preciso desses exames mais específicos. Mas, para o plano… isso parece ser motivo para atrasar ainda mais.

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