— Ele disse que era casado — acrescentou Laura, agora mais séria. — E, pelo estado em que estava, imaginei que tivesse se desentendido com a esposa.
O silêncio caiu entre as duas por um segundo.
— Foi por isso que você disse que eu era difícil de competir? — perguntou Helena, voltando a encará-la. Havia algo mais amargurado em sua voz agora.
Laura sustentou o olhar dela, sem hesitar.
— Sim. E continuo achando. — respondeu com naturalidade. — Porque, mesmo daquele jeito… ele deixou claro que não cruzaria nenhuma linha.
Helena sentiu o impacto daquilo, ainda que não demonstrasse. Seus dedos se fecharam levemente em torno da xícara, enquanto mantinha a postura firme.
Sabia que não era por sua causa que Eduardo estava sozinho em um bar, afundado em pensamentos, recusando-se até mesmo a se deixar envolver por uma mulher bonita e interessante como Laura.
Laura apoiou a sua xícara sobre o pires com cuidado antes de continuar:
— Eu não sei o que aconteceu entre vocês — continuou, em um tom mais ponderado. — Mas sei reconhecer quando alguém está preso a um sentimento…
— Obrigada pelo esclarecimento — interrompeu Helena, a voz firme, o semblante frio. — Mas não somos íntimas o suficiente para falar sobre o meu casamento.
Laura não se abalou. Pelo contrário, um leve sorriso surgiu, tranquilo, quase compreensivo.
— Eu sei.
A serenidade dela deveria irritá-la. Aquela segurança, aquela calma… tudo indicava alguém acostumado a ter controle das situações. Ainda assim, Helena não sentiu raiva, apenas uma atenção crescente, como se houvesse algo mais por trás daquela conversa.
Laura inclinou-se levemente para frente, diminuindo a distância entre elas.
— Não quero falar sobre o seu casamento — disse com suavidade. — Quero falar sobre a Viviane Teles.
O nome caiu como um golpe silencioso.
Helena sentiu o peito se contrair, o ar falhar por um breve instante e Laura percebeu. Sem pressa, ela levou a xícara aos lábios, tomando um gole de café com tranquilidade.
Agora, sim…Tinha a atenção completa de Helena.
Laura havia simpatizado com Helena desde o primeiro encontro, mas sua natureza observadora não ignorava detalhes. Para a maioria das pessoas, Eduardo e Helena formavam um casal perfeitamente alinhado, havia harmonia nos gestos, sintonia nas respostas, uma imagem construída quase impecável. Pareciam, à primeira vista, completar-se.
Mas Laura não se guiava por aparências.
O olhar de Eduardo era o que destoava. Para quem não prestasse atenção, passaria despercebido, era controlado, neutro, adequado. Mas não havia ali o calor esperado, nem a ternura natural de um homem apaixonado. Havia algo, mais complexo… quase como se ele estivesse sempre medindo a distância entre os dois. Laura não conseguiu entender exatamente o que era, mas reconheceu o suficiente para saber que não era amor, ao menos, não da forma simples e evidente.
Já Helena…
Helena era transparente demais, o sorriso era, a postura impecável, digna de uma esposa que cumpria bem o papel que lhe cabia. Mas os olhos… aqueles não mentiam. Os olhos cor de mel carregavam uma sinceridade quase desarmadora, revelando sentimentos que ela própria talvez ainda não tivesse coragem de admitir em voz alta.
E, sobretudo… havia amor. Helena estava apaixonada por Eduardo.
Quanto a Eduardo… para Laura não seria imprudente a ponto de afirmar o mesmo.
E Laura também sabia que havia um passado entre Eduardo e Viviane, não apenas um envolvimento qualquer, mas algo sério o suficiente para um noivado. Ainda assim, o fim daquela história era um território fechado, quase inacessível.
Ela tentou descobrir discretamente, como fazia com tudo.
Mas não encontrou nada concreto. Nem nas redes sociais, nem através de conhecidos em comum. Era como se alguém tivesse cuidadosamente apagado os rastros, deixando apenas fragmentos soltos e versões contraditórias.
O que se comentava era sempre em tom de especulação, diziam que Eduardo simplesmente desaparecera da noite para o dia. Sumiu sem explicações. E, por um ano, ninguém soube nada a respeito dele.

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