Nick demora no banheiro mais do que é realmente necessário para um banho pela manhã. Ele não faz contato visual comigo em nenhum momento enquanto troca de roupa. Como se eu não soubesse que ele estava tocando uma para ter o orgasmo que ele se recusou a receber de mim.
Enquanto ele veste a roupa, Agnes chega e me leva para tomar banho. Não gosto nem um pouco de ver que ele ainda está sem camisa quando ela entra no quarto.
Ela faz tudo. Tira a camisola que botei enquanto meu namorado não estava. Me coloca na banheira. Me ajuda a vestir a roupa depois de me secar e me ajuda também com a cadeira de rodas até eu chegar à cozinha onde o Nick prepara nosso café da manhã.
Comemos em silêncio. Casualmente ele me pergunta algo. Qualquer coisa sem a menor importância e eu respondo com monossilábicos “sim” e “não”. O clima está ruim.
O telefone toca na sala e apesar de não ser nossa empregada, Agnes corre para atender. Talvez ela esteja querendo agradar o seu chefe.
— Senhor Hoffman, uma Allison Crosby quer falar com o senhor. — a enfermeira diz tapando o telefone com a mão quando retorna.
Sem olhar para ela ou se alterar, Nicholas responde.
— Não conheço nenhuma Allison. — ele mete uma colherada de omelete na boca — Diga que não atenderei.
Agnes vai para a sala informando à tal Allison que o Nick não irá falar com ela, mas logo volta ainda com o telefone nas mãos.
— Senhor, ela disse que é do gabinete do reitor Charlie Watkins da Universidade de Miami.
Nicholas para sua colherada no ar e estreita os olhos. Posso ver que algo se passa na cabeça dele antes de continuar a comer. Com um gesto com a mão ele pede que Agnes traga o telefone até ele.
— É o Nicholas. — ele diz ao atender a ligação — Sim, pode falar... Agora?... Mas eu já falei com ele... Sim, tudo bem eu irei... Certo... Tenha um bom dia também.
Nicholas entrega o telefone de volta a Agnes. Eu o observo. Ele está sério e não faz nenhuma menção de me contar do que se trata. Também não pergunto.
Quando terminamos de comer eu logo subo para o cômodo superior e me tranco no banheiro por um minuto. Quem é Allison? Por que o Nick está tão sério? Eu não posso passar o tempo todo com ele aqui sem estarmos numa boa. Eu odeio quando estamos mal.
Escovo os dentes e saio para a varanda. Fico de frente para o mar e a brisa e a paisagem me acertam em cheio, me relaxando um pouco. Aprendi a amar Miami como se eu tivesse nascido aqui.
Pego o celular e ligo para o Asher. Preciso conversar com alguém. Ele atende no segundo toque.
— Oi você.
— Oi sumido.
Ele sorri. Eu também.
— Como você se sente?
— Como se um caminhão tivesse batido em mim. — brinco.
— Isso não tem graça espertinha. — e por ironia ele ri — Não pode brincar com isso.
— Eu sei. Eu... Só estava precisando rir um pouco, sei lá...
— Bom. Então me considere seu palhaço de todas as horas agora.
— Obrigada. — digo sorrindo — Escuta, você não quer vir aqui?
— Onde? Na casa do seu namorado pugilista e super ciumento? Não, obrigado. Pretendo manter todos os meus dentes na boca.
Solto uma gargalhada. Ele passou a se referir ao Nick como o “cão raivoso” depois que eu lhe contei que ele bateu no Logan até fazê-lo engolir alguns dentes.
— Ele não vai bater em você.
— Como pode saber disso? Ele já me deu um soco uma vez se lembra? Ele tem um tremendo gancho de esquerda.
Lembro-me de ter dado uma bronca no Nick por ter batido no Asher no dia em que ele me salvou do Logan. Mas foi bom o que ele fez, acabou salvando a vida do meu amigo porque se o Nick tivesse aparecido lá com ele, o Asher com certeza estaria morto agora.
— Mas ele não vai fazer isso de novo Ash, eu prometo. — insisto mesmo sabendo que ele está apenas de brincadeira — Vem.
— Que horas você me quer aí?
— A hora que você puder.
— Posso ir na hora do almoço. — ele sugere — Podemos almoçar juntos.
Eu não falei nada com o Nick a respeito disso, mas mesmo assim concordo e marco com ele para almoçarmos. Desligo o celular e na mesma hora ele sai pelas portas envidraçadas. Ele se apoia no deque de costas para o mar e de frente pra mim.
— Não podemos passar meses assim, Nick.
— Ellen, por favor, tenta entender amor. — ele se levanta e passa as mãos pelo rosto — Eu... Eu não... Eu não posso fazer nada pra...
— É claro que pode, Nick.
— Ellen amor, por favor, não me peça pra agir como um cretino.
— Não vai estar agindo como um cretino Nick, vai estar agindo como um namorado comum.
— Um namorado comum não transa com a namorada sem fazê-la sentir prazer. Um cretino é que faz isso.
Deixo a cabeça cair para trás no encosto da cadeira soltando o ar com força pelo nariz. Ele é muito teimoso.
— Nick já parou pra pensar se fosse você nessa situação?
— O que quer dizer?
— Se fosse você em uma cadeira de rodas, eu tenho certeza de que não estaríamos tendo essa conversa e sabe por quê?
Ele apenas olha pra mim.
— Porque você faria de tudo pra que eu sentisse prazer mesmo que você não sentisse. Você iria querer transar comigo sempre que pudesse só pra mostrar que mesmo impossibilitado, ainda era o homem capaz de fazer eu me sentir mulher.
Ele fecha os olhos por um momento e pressiona os lábios em uma linha bem fina. Talvez ele esteja entendendo onde eu quero chegar.
— E eu deixaria porque sei o quanto seria importante pra você manter sua autoestima. É muito pedir a mesma chance? É muito pedir pra você me deixar saber que outra não poderá se aproveitar da nossa situação agora pra te tirar de mim?
Ele arregala os olhos de e dá um passo para trás como se tivesse levado um tapa. Nicholas está com a testa bem franzida e uma expressão um tanto sombria.
— Então é isso? Esse é o seu medo?
Não respondo. Não preciso. Tenho certeza que o meu rosto mostra o que domina meus pensamentos. Eu tentei manter a autoestima elevada desde que acordei uma semana atrás. Tentei não demonstrar que morro de medo daquele fantasma voltar à nossa vida e de alguma forma levá-lo embora.

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