Capítulo 121
Riley Black
Acordei com o lado da cama vazio e frio. Não era novidade, mas ainda doía um pouquinho perceber que Luca já tinha saído. Ele sempre levantava antes de mim — cedo demais — e desaparecia no redemoinho de compromissos, reuniões e decisões que sustentavam o império dele. Respirei fundo, me permitindo mais uns segundos ali, deitada, antes de tomar coragem para levantar.
Tomei banho, me arrumei e desci para o escritório. Aquele espaço tinha virado meu refúgio. Ali, eu me sentia útil: revisava documentos, organizava relatórios, conferia contratos. Trabalhar era a forma mais eficiente que encontrei de não ficar só esperando por ele, de não me sentir uma sombra na vida do Don.
As horas escorreram sem que eu percebesse. A luz que entrava pela janela mudou de posição, denunciando que já passava do meio-dia. Meu estômago roncou baixinho, me lembrando de que eu nem havia tomado café da manhã. Fechei a pasta diante de mim e empurrei a cadeira, ajeitando a saia antes de levantar.
Foi quando ouvi a voz dele. Grave, inconfundível, ecoando pelo hall.
— Tamy… se acalma. — Luca falava baixo, firme, do jeito que sempre usava para manter alguém sob controle.
Me aproximei devagar, o coração batendo no mesmo ritmo que os saltos no piso de mármore. A cada passo, a cena se desenhava diante de mim.
Ela estava lá. Tamy. Os olhos vermelhos, o rosto borrado de maquiagem, um lenço branco amarrotado entre os dedos. Chorava com um desespero quase ensaiado, mas convincente o bastante para quem não a conhecesse.
— Luca, eu não sei o que fazer… — soluçava. — Meu pai está muito doente, e eu preciso de ajuda. Você é a única pessoa que pode me ajudar agora…
— Bom, vou cuidar de tranferir seu pai. Fique tranquila. — Ele disse, mas quem não estava tranquila era eu.
Senti meu estômago revirar. O desespero dela podia ser real, mas eu conhecia o tipo. E o jeito que os olhos dela o acompanhavam, buscando uma migalha de atenção, não me enganava.
— Boa tarde. — Minha voz saiu calma, sensata, sem uma rachadura. O tipo de cumprimento que ninguém poderia dizer que foi descortês. Mas meus olhos não saíram dela. Nem por um segundo.
Tamy se recompôs rápido, passando o lenço no rosto e forçando um sorriso educado.
— Riley… que bom te ver.
Sorri de volta, pequeno, controlado. Antes que o silêncio pesasse, o mordomo surgiu discretamente.
— Senhora, o almoço está servido.
Luca assentiu.
— Então venha, Tamy.
Fiz um gesto com a mão pra não ficar chato.
— Almoce conosco.
Ela abriu um sorriso que tentava ser contido, mas eu percebi o brilho disfarçado nos olhos dela. Como se tivesse acabado de ganhar uma batalha invisível.
— Obrigada, eu não quero incomodar… — murmurou, mas já andava na direção da sala de jantar.
Seguimos os três. A mesa estava posta com a elegância de sempre: taças alinhadas, pratos fumegantes, o cheiro delicioso de temperos que enchia o ambiente. Sentei-me ao lado de Luca; Tamy ficou de frente.
Nos primeiros minutos, o almoço correu quase normal. Mas eu percebi logo o padrão: cada vez que eu puxava conversa com ele — sobre os relatórios, sobre a manhã dele, até sobre coisas simples como a reforma no jardim — Tamy se adiantava.
— Luca, lembra daquela vez em que você ajudou meu irmão? — a voz de Tamy veio doce, quase suave, como se fosse um comentário casual. Só que atravessou minha frase pela metade.
Ela sorriu de volta, um pouco tensa.
Luca ergueu os olhos para nós, finalmente percebendo que havia alguma camada estranha naquela troca.
— O que foi?
— Nada, Luca. — Respondi antes que ela pudesse. — Só comentávamos sobre o quanto é raro conviver com alguém que mantém palavra em qualquer circunstância.
Ele arqueou a sobrancelha, confuso, e voltou ao prato.
Tamy pigarreou e tentou retomar o controle:
— Realmente, Riley, você é uma mulher de sorte.
Sorri, dessa vez com um pouco mais de ironia na ponta dos lábios.
— Eu sei. Sorte minha… e azar de quem tenta esquecer isso.
O silêncio seguinte foi o suficiente para que Tamy bebesse um gole longo de água, e eu tive a certeza: ela não tinha vindo só pedir ajuda para o pai. Aquilo era só a porta de entrada.
O pior é que Luca caiu na dela. Pelos menos, era o que parecia.
Pra quem está desesperada ela veio com uma roupa minúscula e chamativa.

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