Capítulo 153
Rúbia
A noite foi um nó cego.
Tentei dormir naquele sofá do quarto da Mia, mas cada barulho da casa me fazia abrir os olhos.
O choro que eu segurava queimava por dentro. Cochilei só de madrugada, quando o corpo finalmente cedeu ao cansaço — e mesmo assim, o sono veio em pedaços, leve, incerto.
Quando abri os olhos, o quarto estava meio claro.
Demorei alguns segundos pra entender onde estava. A manta sobre mim era macia, mas eu não lembrava de tê-la pego. Ué?
Ergui o olhar, confusa, e percebi que a chave continuava na fechadura — por dentro.
Mas... havia outra do lado de fora.
Alguém tinha aberto a porta.
O coração acelerou.
Ele tinha vindo.
Derrick.
Levantei, sentindo o corpo pesado. O berço da Mia estava vazio.
— Mia? — chamei, a voz ainda rouca.
Nenhuma resposta.
Olhei em volta, o quarto arrumado, as cortinas meio abertas. Tudo no lugar. Tudo... menos ela.
Desci as escadas apavorada, o estômago em nós, até ouvir o som familiar do riso da minha filha vindo da cozinha.
A respiração voltou.
Ela estava sentada no colo de uma das empregadas, mordendo um pedacinho de pão, bochechas sujas de geleia, feliz da vida.
— Senhora! — disse a moça, apressando-se a levantar. — Bom dia. A Mia acordou cedo, o senhor Derrick a trouxe, então preparei o café dela.
Agradeci com um sorriso cansado.
— Obrigada... — olhei em volta. — Cadê o Derrick?
— Saiu, senhora. Deve ter ido trabalhar.
Assenti devagar.
Saiu.
Depois de tudo, saiu.
Respirei fundo, tentando segurar o nó que voltava à garganta.
Sentei à mesa, aceitei o café que ela me ofereceu e fiquei ali, olhando pro nada enquanto o cheiro do pão quente se misturava ao do café fresco.
Mas o gosto parecia ter sumido.
Eu só conseguia pensar na noite anterior.
Naquela dúvida dele, nas palavras cortantes, nas mãos trêmulas de raiva.
Mas também na manta sobre mim — quem teria colocado? Ele?
Por que viria até o quarto se não acreditava mais em mim?
Terminei o café em silêncio.
— Você termina de dar o café a ela?
— Sim senhora.
— Eu vou me arrumar — avisei. — Quero sair com a Mia hoje.
— Posso trocar ela pra senhora — disse a empregada, gentil.
— Obrigada.
Dei um beijo na pequena que sorria pra mim.
Subi as escadas, cada degrau pesado como lembrança. No quarto, vesti uma calça de linho e uma blusa leve, o cabelo preso num coque apressado. O espelho me devolveu uma versão minha que eu quase não reconhecia: pálida, olheiras fundas, um olhar de quem lutou a noite inteira e ainda não sabe se venceu ou perdeu.
Peguei a bolsa, desci, e encontrei Mia pronta, cheirando a sabonete infantil.
Peguei-a no colo, e o toque dela me trouxe um conforto que nenhuma palavra de Derrick conseguiria dar.
— Vamos, meu amor. A mamãe precisa resolver uma coisinha, tá? — murmurei, beijando a testa dela.
Pedi que o motorista nos levasse à clínica.
O carro seguiu silencioso, o vidro refletindo minha expressão dura e confusa. Lá fora, o mundo parecia o mesmo — mas o meu tinha virado do avesso.
Na recepção, fiz o cadastro.
— Consulta de retorno — expliquei.
Sentei na sala de espera, Mia dormindo no carrinho, o som distante dos passos e dos telefones tocando.
Quando o médico chamou meu nome, respirei fundo antes de entrar.
Ele me recebeu com o mesmo sorriso calmo de sempre.

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