Capítulo 154
Rúbia
O dia inteiro passou devagar, arrastado, como se o tempo tivesse medo de chegar à noite.
Derrick não apareceu.
Não era comum.
Ele sempre dava um jeito de vir pra casa — nem que fosse por quinze minutos, pra ver a Mia, pra me ver.
Às vezes trazia flores, às vezes só um café e aquele olhar cansado de quem queria silêncio. Mas vinha.
Hoje, não.
Nada.
Fiquei com Mia na sala, brincando no tapete, tentando distrair a cabeça. Ela ria, balbuciava sons e puxava os brinquedos com a curiosidade de quem não conhece a palavra preocupação. Eu fingia que sorria, só pra não chorar e deixar ela triste.
O telefone tocou na mesa ao lado.
Greting, uma das funcionárias, correu pra atender.
— Residência de Derrick e Rúbia, boa noite.
O tom de voz dela mudou rápido. Do formal para um tom doce, leve demais.
Vi quando olhou pra mim, depois desviou o olhar, sorrindo de um jeito que não gostei.
“É ele.”
O pensamento veio automático. Derrick.
Preferiu ligar pra ela.
Pra ela — e não pra mim.
A conversa foi curta, mas o sorriso dela permaneceu até depois de desligar. Um sorriso distraído, mole, que não combinava com o clima da casa.
— Era o senhor Derrick? — perguntei, tentando manter a voz neutra.
Ela se atrapalhou, ajeitando o cabelo.
— Ah… sim, senhora. Ele só pediu pra avisar que ia se atrasar.
Assenti devagar, o peito apertado.
— Entendi.
A noite se arrastou entre brinquedos espalhados e o som do relógio marcando as horas que ele não voltava.
A casa ficou grande demais.
Mia dormiu cedo, exausta de tanto brincar, e eu fiquei ali, sozinha no quarto, sentindo o eco de tudo que ele disse ontem.
Precisava falar com ele.
Precisava dizer que o médico confirmou, que o exame de DNA podia ser feito em uma semana. Que havia chance, sim, de ele estar errado.
Mas o medo da rejeição e o orgulho brigavam dentro de mim.
Ouvi o barulho do carro quando chegou.
O relógio marcava quase onze da noite.
Meu coração disparou — e então ouvi passos pesados, lentos, subindo a escada.
Quando ele entrou no quarto, o choque me cortou o fôlego.
A camisa branca estava suja, manchada de poeira e suor, aberta no peito. Derrick havia bebido muito.
Ele ainda segurava uma garrafa pela metade.
— Ah… você está aí? — murmurou, a voz pastosa, arrastada. — Pensei que fugiria de mim de novo.
— Você nunca bebeu assim, Derrick. — dei um passo à frente, tentando controlar a respiração. — Larga essa garrafa, toma um banho. Eu preciso conversar, mas não com alguém bêbado.
Ele colocou a garrafa sobre o armário com força.
— Conversar o quê? — provocou, desabotoando a camisa. — Que eu fiz papel de trouxa?
— Derrick, vai tomar um banho. — insisti. O cheiro forte de álcool me embrulhava o estômago. — A gente fala quando você estiver sóbrio.
Ele riu — um riso amargo, sem graça.
— Sabe o que é pior, Rúbia? É que eu não sei o que dói mais.
— Para de me acusar — falei, firme — ou as coisas vão mudar entre nós.
— Mudar? — ele riu de novo, mas agora havia algo sombrio no olhar. — Eu não posso te matar por traição, porque quero mais um filho. Quem não quer dois filhos, não é?
Deu um passo em minha direção, a voz baixa e cruel.
— Decidi assumir o seu filho bastardo. Fica tranquila.
Meu sangue ferveu.
— Ele não é nenhum bastardo! Vá à merda, Derrick!
Ele veio mais perto, tão perto que senti o hálito quente de bebida.
— Você matou o que eu sentia por você, Rúbia. — disse, frio. — A partir de agora, algumas coisas vão mudar.
— Por isso estava cantando a Greting por telefone? — rebati, encarando-o com desprezo. — Pensa que não percebi?

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