Capítulo 157
Rúbia
Os dias foram passando como quem arrasta uma mala pesada corredor afora: lentos, barulhentos por dentro. Eu acordava cedo, montava a bandeja do café da senhora Riley, passava pela ala do jardim com a Mia no carrinho, anotava recados, separava lençóis, conferia mercadoria na copa. E sempre, sem falhar, lá pelas dez ou ao final da tarde… ele aparecia.
Derrick vinha de camisa escura e olhar escurecido. Tropeçava nas palavras como quem tenta domar um cavalo bravo — o cavalo era ele mesmo, só pra constar.
— Eu vim ver se você… — ele começava.
— Estou bem. Já pode voltar — eu cortava, medindo distância com o corpo, uma mão no carrinho, outra no bolso do avental.
— Eu sei que você mentiu — ele dizia baixo, como se a frase fosse uma febre que volta. — Mas eu vou assumir o filho.
— Já ouvi — eu respondia, sem levantar a voz. — E já disse que não preciso de esmola.
A senhora Riley aprendeu a esperar no horário. Era engraçado, ele começava falar, e ela aparecia desmontando e montando uma das armas enquanto olhava pra ele.
— Bom dia Derrick. Já está indo? — Ela pegou a mania do chefe.
Derrick fechava a mandíbula, os olhos indo e voltando do meu rosto para a Mia, como quem procura um “antes” onde só existe “depois”. Às vezes ele tentava se aproximar da menina.
— Oi, pequena… — falava com carinho, e esse era o pior momento, porque o amor dele por criança doía em mim de um jeito torto. Eu sabia dos sentimentos dele perfeitamente.
Eu deixava. Mia ria, batia as mãos, queria colo. Quando ele pegava, parecia lembrar de tudo o que poderia ter sido. E devolvia rápido, como quem se queima.
Azar o dele. O pior cego é aquele que não quer ver.
.
Outro dia, na área de serviço, ele encostou na porta e sussurrou:
— Se fosse meu, eu já teria feito tanta coisa. Gostaria de ser pai de verdade.
— Se for seu, você vai ser — respondi, mexendo a água do balde. — Mas pai não é quem grita “minha” na hora da raiva. É aquele que ama, que cuida.

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