Capítulo 158
Rúbia
— Eu não vou dar divórcio porra nenhuma. Vou conversar com o chefe. Nem crie ilusões. — Respondeu com certa tranquilidade que me deu nos nervos.
— Não quero alguém que me trata como vadia, traidora e dissimulada. Passo. Não preciso de um homem pra isso.
Ele engoliu seco, desviou os olhos e abriu a porta para mim, num gesto automático.
— A Mia vai ficar aqui? — perguntou, tentando vestir normalidade.
— Vai.
Saí, desci os degraus. Ele me acompanhou em silêncio até o carro. Sentei, ajeitei o cinto. O perfume dele me alcançou como memória de um lugar que não existe mais.
A rua seguiu reta, e o nosso silêncio, torto.
— Eu quero que você volte pra casa — ele soltou, finalmente, com a voz baixa, as mãos firmes no volante.
— Não. Eu não vou voltar. — Falei.
Ele parou no semáforo e virou pra mim.
— Vamos esquecer isso. Ok? É só você voltar e pronto. Sinto falta de vocês.
— Não é simples assim. — Ele olhou rápido pra mim, depois voltou para a pista, arrancando o carro.
— Não importa quem seja o pai. Volta pra casa e eu não vou mais falar nada. Eu prometo.
Olhei pela janela: árvores correndo para trás, um homem lavando a calçada, uma mulher puxando um menino pela mão. O mundo segue, mesmo quando a gente não aguenta.
— Nem pensar — respondi. — Eu disse que estava me machucando, não se importou. Você não confia em mim. Me disse coisas que vão ficar para sempre guardadas. É melhor deixar como está.
— Só se coloca no meu lugar por um momento? — saiu quase um pedido, mas vinha armado de defesa.
— Eu me coloco — falei, sem dureza, só verdade. — Eu entendo seu medo. Mas você me machucou. Quebrou algo. Nunca será como antes. Sabe quando passa do limite? Pois você passou. Tudo bem ter estranhado, ter duvidado, mas você foi além. Enquanto eu estava tão chocada e perdida quanto você. "Ah, não precisa usar preservativo. Sou estéril, Rúbia." — Imitei a voz dele.
Ele respirou fundo, tão fundo que eu ouvi. Depois se calou. O resto do caminho foi feito de faróis, setas e o som do motor, como no dia em que tudo começou a desandar.
Chegamos ao hospital da Amercana — discreto, credenciado, seguro. A fachada não gritava, os corredores cheiravam a álcool e ar-condicionado. Uma recepcionista nos cumprimentou pelo nome, sabia exatamente o que fazer. Luca tinha agilizado — claro que tinha.
— A coleta já está autorizada — disse a moça, com sorriso profissional. — Sala três, por favor.
Sentei na poltrona reclinável. Uma enfermeira gentil apertou o elástico no meu braço, procurou a veia com dedos de piano.
— Vai ser só um desconforto — ela avisou.
— Tudo bem.
Eu olhei para o teto, para as lâmpadas redondas, e contei de cinco para trás. O sangue correndo para um tubo transparente fez um caminho que eu nunca pensei que faria por nós dois.
Ele me observava, em pé, as mãos nos bolsos, o rosto tenso. Quando a enfermeira tirou a agulha, ele se moveu um centímetro, como se fosse segurar minha mão. Não segurou.
— Agora a sua coleta, senhor — a enfermeira disse. — Swab bucal. É rapidinho.
Ele assentiu. Abriu a boca. O cotonete longo foi passado por dentro da bochecha, duas vezes. Outro tubo. Outra etiqueta.
Terminamos. A enfermeira conferiu os códigos, lacrou as amostras com cuidado que dava vontade de confiar no mundo.
O médico entrou logo depois. De jaleco claro, óculos finos, uma prancheta digital.
— Bom dia. Sou o doutor Alessandro. — Cumprimentou com um aceno. — Teste de paternidade não invasivo: combinamos sangue materno e amostra bucal do suposto pai. O laboratório parceiro é de alta segurança, cadeias de custódia verificadas. O prazo padrão é de cinco a sete dias úteis para resultado preliminar, e até sete a dez dias para o laudo definitivo. Qualquer incongruência, repetimos imediatamente sem custo.
— Cinco dias úteis — Derrick repetiu, como se cada dia fosse uma pena.

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