— Ramiro, venha cá um instante.
Ramiro se aproximou:
— O que foi, mãe?
Filomena o puxou para um canto do quintal, parando debaixo da jabuticabeira.
— A Tereza está estranha hoje à noite. Você, como irmão mais velho, sabe de alguma coisa?
Diante da pergunta repentina da mãe sobre a irmã, o coração de Ramiro apertou. Ele, obviamente, sabia de algumas coisas, mas não tinha coragem de contar.
— Mãe, você com certeza está imaginando coisas. A Tereza está do mesmo jeito de sempre. Se ela parece preocupada, deve ser cansaço. Ela foi transferida para a nova empresa, está atolada de trabalho e ainda precisa encontrar tempo para cuidar da filha. Ela não é de ferro nem tem superpoderes. Deve ser apenas fadiga. — Ramiro tentou desconversar e se safar da situação.
Ninguém conhece melhor um filho do que sua mãe. Filomena já havia captado as sutis mudanças na expressão dele.
Sempre que mentia, ele piscava com mais frequência. Naquele momento, após dar aquela desculpa esfarrapada, ele piscou mais vezes do que era possível contar.
— Se você não me disser a verdade agora mesmo, eu vou ficar muito zangada. — Filomena assumiu uma postura severa.
A expressão de Ramiro enrijeceu, e ele forçou uma risada sem graça:
— Mãe, eu juro que não sei de nada. Por que você não pergunta à Tereza amanhã?
— Se ela estivesse disposta a falar, eu não estaria perguntando a você. — Filomena lançou um olhar irritado para o filho. — Na hora que eu preciso, você não serve para nada. Vá logo embora.
Ramiro murmurou uma concordância apressada e correu em direção ao carro.
Filomena pegou o celular e enviou uma mensagem de texto.
Após fazer a filha dormir, Tereza desceu para comer a canja que sua mãe havia preparado. Em seguida, perguntou:
— Mãe, você se lembra de onde está aquela caixa onde eu guardava meus livros?
Filomena pareceu confusa por um instante e respondeu:
— Seu pai que guardou.
Flávio Leal foi imediatamente até um quarto de despejo ali perto e, em pouco tempo, voltou carregando a caixa.
— Está aqui. O que foi? Está procurando algum livro?
Tereza terminou de comer a canja, agachou-se e revirou a caixa. Após procurar um pouco, pegou um grosso volume de medicina e o abriu.
A dedicatória na folha de rosto ainda estava lá.
Tereza fechou o livro e disse aos pais:
— Vou subir.
— Tereza, você não devia esconder as coisas de mim.
Tereza ficou atônita e olhou para a mãe. Filomena retribuiu com um olhar de reprovação:
— Sabe o que as pessoas estão comentando lá fora? Se eu não tivesse procurado saber através de amigos, você continuaria escondendo isso de mim?
Tereza abaixou a cabeça, o coração invadido por um turbilhão de emoções contraditórias.
— Mãe, há coisas que eu não posso decidir sozinha. — Tereza deu um sorriso amargo, em tom de autodepreciação.
— A Hera é cunhada dele. Com esse tipo de parentesco, como o Norberto não tem o mínimo de decoro? Ele está mesmo planejando encenar um romance proibido entre cunhado e viúva do próprio irmão? — Filomena estava furiosa, e a sua decepção com o outrora genro perfeito foi instantânea e absoluta.
No passado, ela só havia consentido o casamento da filha por acreditar no bom caráter do homem. Agora, estava claro que aquele caráter era uma farsa.
— Mãe, a Hera pode ser cunhada dele, mas também é a mulher por quem ele sempre foi apaixonado em segredo desde a juventude. Antes, a posição dela os impedia. Mas agora que o Alarico faleceu, tirando a moralidade, não há mais nenhum obstáculo entre eles. Se os dois não se importam em atropelar os valores morais, quem pode impedi-los de ficarem juntos? — O ressentimento acumulado de Tereza durante um mês finalmente encontrou uma válvula de escape. Seus olhos ficaram marejados, mas ela não teve coragem de olhar para o rosto da mãe.
Porque a decepção e a dor da mãe seriam o que mais a machucaria.
Desde criança, ela sempre fora obstinada e tentara ser a filha perfeita que nunca dava trabalho nem causava preocupações aos pais. No entanto, no fim das contas, ela não tinha forças para reverter a ruína de seu próprio casamento.
Ouvindo o desabafo da filha, os olhos de Filomena se encheram de lágrimas de pura raiva. Ela enxugou o canto dos olhos:
— E o que a Família Cardoso tem a dizer sobre isso? Eles não vão tomar uma atitude?

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