Aquelas estranhezas da adolescência, vistas de agora, traziam um sabor totalmente diferente.
Se pudesse voltar no tempo...
Tristan jamais fugiria dela novamente. Pelo contrário, agarraria todas as oportunidades para puxar assunto, para se aproximar... dela.
— Ei, por que você está ficando vermelho? A nossa Tereza é uma mulher casada, não vá cruzar a linha. — A percepção afiada de Henrique não deixou passar o rubor no rosto de Tristan, mesmo sob a luz fraca.
— Pode ficar tranquilo. — Tristan respondeu com calma e, em seguida, deu uma risada: — Já faz muito tempo. Hoje, quando lembro, é só saudosismo mesmo.
Tereza limitou-se a sorrir, assentindo:
— Eu só me lembro de que você tocava piano muito bem.
Surpreso, o olhar de Tristan pareceu divagar:
— Eu achava que você nunca tinha prestado atenção ou que, se ouvisse, logo esqueceria.
Prendendo o riso nos lábios, Tereza confessou:
— Eu era das ciências exatas, não tinha muita veia artística. Então, a música que você tocava era maravilhosa para mim, daquelas que a gente escuta e não esquece mais.
Apoiando o queixo na mão, Henrique deixava os olhos de águia vagarem pelos rostos dos dois. Eles falavam sobre o passado, mas por que ele estava se sentindo... com ciúmes?
— Vocês tiveram uma quedinha um pelo outro na adolescência, não foi? — Henrique ergueu a sobrancelha, provocando.
Tereza levantou os olhos e encarou Henrique. O olhar, embora impassível, foi o suficiente para fazê-lo desmanchar um pouco do sorriso.
Tristan apenas tomava seu chá em silêncio.
Os três mudaram de assunto e passaram a discutir diretrizes de trabalho, deixando o passado de lado.
Henrique sempre fora excelente em criar conversas; com ele por perto, era impossível o clima ficar entediante.
Entre conversas e pratos, o almoço se aproximou do fim.
Henrique checou o relógio e dirigiu-se a Tristan:
— A Tereza e eu precisamos voltar logo. Temos uma reunião às quatro e meia. E você, Tristan, como vai voltar?
— Nosso motorista está esperando lá embaixo. — respondeu Tristan.
Henrique assentiu e levantou-se. Quando Tereza fez o mesmo movimento, Henrique, por reflexo, estendeu a mão para amparar levemente o encosto da cadeira dela, dizendo a Tristan:
— Então vamos nessa. Marcamos outra hora.
Os gestos quase instintivos de Henrique não passaram despercebidos por Tristan. Seus olhos vacilaram por um breve instante, mas o sorriso manteve-se intocado:
— Combinado, até a próxima. Tenham uma boa viagem.
Tristan os acompanhou até o saguão e só depois de vê-los entrar no carro e partir, voltou para se encontrar com seus colegas.
Sentado no banco de trás da van executiva, Henrique quebrou o silêncio:
— Tereza, o que você acha do Tristan? Conheço o cara há anos, ele sempre foi muito disciplinado e regrado, tem uma reputação impecável.
Tereza fechou os olhos. A temperatura agradável do ar-condicionado e o cansaço acumulado a venceram, e ela acabou caindo no sono sem perceber.
Entre o sono e a vigília, sentiu-se transportada de volta àquele laboratório perto da universidade.
A luz do sol da tarde era límpida e brilhante, tingindo tudo com um tom dourado.
Vestida com seu jaleco branco e óculos de proteção, ela estava totalmente concentrada, observando as mudanças nas lâminas de células sob o microscópio e anotando os dados.
O professor estava sentado ao lado, folheando documentos, enquanto o aroma de chá preto pairava no ar.
De repente, bateram à porta do laboratório, e a voz afável do professor pediu que a pessoa entrasse.
Tereza virou o rosto para olhar. Contra a luz, uma silhueta alta e esguia surgiu daquela aura dourada, quase como uma miragem.
— Sr. Norberto... — o professor cumprimentou com um sorriso.
Só então Tereza pôde ver nitidamente; era o mesmo homem que, dias atrás, lhe fizera perguntas durante a apresentação.
Aquele Norberto mais jovem emanava uma serenidade e uma perspicácia muito além da sua idade. Apesar de novo, já não demonstrava as próprias emoções facilmente, carregando uma nobreza inata e uma postura inatingível.
Tereza o encarou fixamente. Depois de cumprimentar o professor, o olhar de Norberto recaiu sobre ela por um breve instante, varreu a bancada repleta de amostras e anotações e, com um sorriso leve, ele acenou:
— Olá, Sra. Leal. Nos encontramos de novo.
Aquela havia sido a segunda vez que Tereza e Norberto se viam. Ele era como o sol escaldante da tarde, repleto de esplendor e majestade, educado e cortês, mas também como um deus que, de repente, descia à terra, provocando um impacto estrondoso em seu coração naquela tarde tão banal.

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