O reflexo no espelho do banheiro do ateliê não mentia, embora Clara Mendes desejasse que sim. Sob a luz fria e impiedosa do teto, as suas mãos pareciam permanentemente manchadas por uma leve camada de poeira cinzenta, o resquício teimoso da argila que ela passara as últimas quatro horas a moldar. Para Clara, aquela sujeira era um distintivo de honra, a única prova tangível de que ela possuía um mundo que era exclusivamente seu. No entanto, sabendo que o jantar de gala daquela noite exigia a perfeição milimétrica de uma herdeira da dinastia Mendes, ela suspirou e abriu a torneira, observando a água levar embora os últimos vestígios da sua liberdade artística.
A mansão dos Mendes, localizada no bairro mais nobre e vigiado da capital, nunca fora um lar; era uma vitrine de poder econômico. Desde a infância, Clara compreendera a mecânica gélida daquela casa. Enquanto os seus irmãos mais velhos eram preparados para liderar os conselhos de administração e expandir o império de mineração e logística da família, a ela fora reservado o papel de ornamento polido. Ela não possuía voz nas decisões dominicais, não era consultada sobre os investimentos e, frequentemente, a sua presença nas refeições era tratada como um mero protocolo visual. Para o seu pai, o implacável patriarca Otávio Mendes, e para a sua mãe, a altiva socialite Beatriz, Clara não era uma filha com sonhos, dores ou aspirações. Ela era, puramente, uma peça de xadrez de alto valor estratégico, mantida guardada na caixa até o momento exato em que o tabuleiro exigisse o seu sacrifício em prol de uma aliança mais lucrativa.
A única exceção a essa regra de gelo era a tia-avó Leonor.
Leonor era o único porto seguro de Clara, a única pessoa naquele palácio de mármore que olhava para ela e enxergava a sua alma, e não o potencial do seu sobrenome. Idosa, com a saúde fragilizada pelo tempo, mas com uma lucidez e doçura que contrastavam violentamente com o restante da família, a tia-avó era quem financiava secretamente os materiais de escultura de Clara e quem lhe dedicava abraços demorados que cheiravam a alfazema. Leonor, que também fora uma jovem da alta sociedade forçada a conveniências no passado, reconhecia o brilho sufocado nos olhos da sobrinha-neta. Ela costumava segurar as mãos de Clara e sussurrar, longe dos ouvidos atentos dos empregados, que a arte a salvaria do inverno do mundo.
— Clara? Estás a ouvir-me? — A voz estridente de Beatriz Mendes cortou os pensamentos da jovem, batendo na porta do ateliê com uma impaciência aristocrática. — O teu pai já está no escritório com os advogados. O anúncio será feito antes do jantar. Trata de te apressar com essa maquiagem. Não tolerarei atrasos hoje, de todas as noites.
— Já vou, mãe — respondeu Clara, a voz saindo num tom baixo e submisso que ela aperfeiçoara ao longo dos anos para evitar conflitos desnecessários.
Ela secou as mãos na toalha de linho e encarou o vestido de seda azul-escuro pendurado no cabide. O anúncio ao qual a sua mãe se referia não era segredo, embora os detalhes tivessem sido guardados sob sete chaves. Há semanas, o mercado financeiro sussurrava sobre a monumental fusão corporativa entre o Grupo Mendes e o Grupo Albuquerque, um conglomerado farmacêutico e de infraestrutura cujo poder rivalizava com o deles. Clara sabia, pela frieza dos olhares que o seu pai lhe lançava durante o pequeno-almoço, que a fusão não seria selada apenas com assinaturas em contratos bilionários. A outra empresa impusera uma condição inegociável, um clássico do velho mundo corporativo que ainda ditava as regras nas sombras da elite: um casamento para garantir que os interesses de ambas as famílias estivessem unidos pelo sangue e pelo patrimônio.
Enquanto descia a imensa escadaria de mármore, sentindo o tecido do vestido roçar nas suas pernas, o coração de Clara batia num ritmo descompassado. Ela sabia que seria entregue a algum herdeiro arrogante, algum homem criado para a ganância que a trataria com a mesma indiferença com que o seu pai tratava a sua mãe. Ela já estava mentalmente preparada para aceitar o seu destino com a dignidade silenciosa que era a sua única defesa.
Ao entrar no imenso escritório revestido de jacarandá, o cheiro de charuto e papéis timbrados invadiu os seus sentidos. Otávio Mendes estava de pé atrás da monumental mesa de trabalho, enquanto dois advogados seniores organizavam pastas de couro. O olhar do pai pousou sobre Clara, desprovido de qualquer calor paternal, avaliando-a como um avaliador examina uma obra de arte que está prestes a ser leiloada.
— Senta-te, Clara — ordenou Otávio, apontando para a cadeira de veludo à frente da mesa. — Os trâmites com o conselho do Grupo Albuquerque foram finalizados. A fusão está garantida. Como sabes, o acordo exigia um vínculo familiar para estabilizar as ações no mercado internacional.
Clara sentou-se, mantendo a postura ereta, as mãos cruzadas sobre o colo para ocultar o tremor dos dedos. — Sim, pai. Quem... quem é o herdeiro?
— Arthur Albuquerque — respondeu o pai, sem rodeios, soltando a fumaça do charuto em direção ao teto. — Ele acabou de ser nomeado o novo presidente do grupo. O antigo patriarca Albuquerque exigiu que ele estivesse casado para assumir o controle total das ações operacionais. É um homem brilhante, focado e pragmático. O casamento ocorrerá em dois meses.
O nome ecoou na mente de Clara como o estrondo de um trovão num dia de sol absoluto. O ar pareceu faltar nos seus pulmões por alguns segundos, e a sala de jacarandá pareceu girar de forma lenta.
Arthur Albuquerque.
Não era um estranho. Não era apenas um nome nas colunas de economia que ela lia casualmente. Era o rapaz que habitava os cantos mais protegidos e melancólicos da sua memória de adolescência. O protagonista silencioso de uma paixão platônica que ela nunca tivera a audácia de confessar a ninguém, nem mesmo à tia-avó Leonor.


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