O silêncio que se instalou no escritório após as palavras de Otávio Mendes era denso, quase sufocante. Clara permanecia imóvel na cadeira de veludo, enquanto o peso do papel timbrado que um dos advogados estendera em sua direção parecia queimar o ar entre eles. Era o contrato pré-nupcial. Com as mãos trêmulas, ela puxou o documento para perto e começou a passar os olhos pelas linhas de jargão jurídico complexo. À medida que lia, o seu coração apertava-se ainda mais.
As cláusulas eram uma armadilha perfeita, um monumento à ganância disfarçado de proteção patrimonial. O documento determinava uma regra unilateral e absoluta: não importava o motivo ou de quem partisse a iniciativa, se houvesse divórcio, Clara seria a única obrigada a indenizar o Grupo Albuquerque. Ela teria que devolver integralmente cada centavo investido em sua manutenção, vestuário, joias ou despesas pessoais ao longo dos anos, além de arcar com uma multa rescisória astronômica de cinco milhões de reais.
Clara sabia, com uma clareza dolorosa, que aquela assinatura era uma sentença de prisão perpétua. O seu pai jamais pagaria um único centavo para tirá-la daquele casamento. Para a família Mendes, uma filha divorciada e falida era uma vergonha que eles prefeririam enterrar.
— Pai... — a voz de Clara quebrou a rigidez do ambiente, soando mais firme do que ela própria esperava. — Essa multa... ela é unilateral. Não importa o que aconteça, se houver uma separação, toda a punição financeira recai sobre mim.
Otávio Mendes soltou uma baforada lenta de seu charuto, o olhar endurecendo instantaneamente. A audácia da filha em questionar a estrutura do negócio era algo intolerável para o patriarca.
— Assine logo isso, Clara. Deixe de ser sentimental e tola — respondeu o pai, a voz cortante como o aço. — Você nunca vai se divorciar. O sobrenome Mendes não carrega o fracasso de uma separação. Esse contrato é apenas a garantia que a família dele exigiu para manter os ativos integrados. Você vai cumprir o seu papel, casar-se, dar um herdeiro àquela família e manter a boca fechada.
Pela primeira vez em vinte e dois anos de uma vida moldada pela submissão, algo estalou dentro de Clara. A lembrança do rapaz gentil na quadra da escola misturou-se com o desespero de ser empurrada para um abismo sem volta. Ela empurrou o documento de volta, erguendo o queixo.
— Eu não vou assinar sem falar com o Arthur primeiro — declarou ela, enfrentando diretamente os olhos tempestuosos do pai. — Eu preciso conversar com ele antes de colocar o meu nome nisso.
O movimento foi tão rápido que Clara sequer teve tempo de recuar. Otávio Mendes levantou-se num ímpeto, contornou a imensa mesa de jacarandá e desferiu um tapa violento contra o rosto da filha.
O estalo seco ecoou pelas paredes do escritório. O impacto jogou a cabeça de Clara para o lado, fazendo seus longos cabelos castanhos — mantidos sempre na cor natural e impecavelmente alinhados, já que seus pais jamais permitiriam que ela tivesse cabelos coloridos ou qualquer traço de rebeldia — caírem sobre o seu rosto. A pele de sua bochecha esquerda ardeu imediatamente, uma ardência que empalidecia diante da humilhação profunda que invadiu a sua alma. Os advogados no canto da sala desviaram o olhar, fingindo que nada havia acontecido.
— Você não exige nada nesta casa! — sibilou Otávio, segurando Clara pelo braço com força, os olhos injetados de fúria. — Você é minha filha e vai fazer exatamente o que eu determinar. Eu gastei milhões na sua criação e na sua educação artística inútil para que servisse aos interesses desta família quando chegasse a hora. Você vai assinar e...
Antes que ele pudesse terminar a ameaça, a porta do escritório abriu-se abruptamente. Beatriz Mendes entrou no recinto, a expressão tensa por trás da maquiagem perfeita.
— Otávio, os Albuquerque acabaram de chegar. Os convidados estão entrando no salão principal — anunciou a matriarca, congelando por um segundo ao notar a postura agressiva do marido e o rosto marcado de Clara. Ela franziu o cenho, mas a sua única preocupação era a aparência social. — Arrume esse cabelo, Clara. Não ouse aparecer lá fora com essa cara. Limpa o rosto e desce.
Otávio soltou o braço da filha com um empurrão ríspido, ajeitando o paletó com as mãos trêmulas de raiva. O pragmatismo corporativo falou mais alto que o seu orgulho ferido; ele não podia causar um escândalo minutos antes do jantar de gala.
— Você tem até o final da noite para assinar esse papel, Clara — murmurou ele, a voz baixa e venenosa. — Com ou sem conversa.
Clara permaneceu sozinha no escritório por alguns minutos, o peito arfando enquanto as lágrimas teimosas lutavam para escapar. Ela caminhou até o espelho de moldura dourada, ajeitou as mechas de seu cabelo castanho sobre a bochecha avermelhada para disfarçar a marca do tapa e respirou fundo, engolindo a própria dor.
Quando desceu para o salão de festas, o ambiente estava repleto do tilintar de taças de cristal e conversas sussurradas em tons baixos. A família Albuquerque já estava posicionada no centro do salão. Ao ver Clara aproximar-se, a mãe de Arthur, uma mulher de postura gélida adornada com esmeraldas imperiais, mediu-a de cima a baixo com um olhar clínico. Não havia afeto, apenas a avaliação fria de quem analisa uma peça de arte adquirida por um valor extremamente alto num leilão.
Clara forçou a sua melhor máscara de etiqueta social, mas os seus olhos procuravam apenas uma pessoa. Arthur estava de pé ao lado do pai, vestindo um smoking perfeitamente cortado. A sua postura era ainda mais imponente do que na adolescência, os traços do rosto agora perfeitamente esculpidos pela maturidade. No entanto, o calor que Clara recordava ter visto naquela tarde de chuva na escola havia desaparecido por completo. Ele parecia uma estátua de gelo.
Aproveitando um momento em que os patriarcas se afastaram para discutir detalhes com outros acionistas, Clara deu um passo à frente, aproximando-se dele.

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