O sol ainda não havia nascido quando Robert acordou sobressaltado no apartamento do Itaim Bibi. Eram 4h47 da manhã. Ao seu lado, Mariana dormia profundamente, o rosto inchado de tanto chorar na noite anterior. Os lençóis estavam embolados ao redor do corpo nu dela. Ele ficou olhando para ela por longos minutos, o peito apertado.
Duas semanas.
Era tudo que lhe restava.
A ideia de voltar para Nova York — para o frio, para o apartamento vazio, para uma vida sem ela — parecia absurda. Pior que absurda: impossível.
Robert se levantou sem fazer barulho, vestiu uma calça de moletom e uma camiseta, e foi até a varanda. A cidade ainda dormia. Apenas alguns pontos de luz brilhavam na escuridão. Ele respirou o ar úmido da madrugada e tomou uma decisão que mudaria tudo.
Não iria embora.
Não podia.
Às 5h20, ele acordou Mariana com um beijo suave na testa.
— Vem comigo — sussurrou ele. — Quero te mostrar uma coisa.
Mariana, ainda sonolenta e com os olhos vermelhos, não fez perguntas. Vestiu um short jeans e uma blusa larga dele, calçou tênis e o acompanhou. Entraram no carro em silêncio. Robert dirigiu até o Parque Ibirapuera.
O parque abria oficialmente às 5h. Eles foram quase os primeiros a entrar. O ar estava fresco, úmido, com cheiro de grama molhada e terra. O céu começava a clarear no horizonte, pintando-se de tons suaves de rosa, laranja e dourado. Os pássaros cantavam alto, celebrando o amanhecer.
Eles caminharam de mãos dadas pelo mesmo caminho que haviam percorrido semanas antes, durante o piquenique. Dessa vez, porém, não havia risadas. Havia peso. Havia medo. Havia amor.
Chegaram ao mesmo lugar onde haviam feito amor quase em público — a pequena elevação gramada parcialmente escondida por arbustos, com vista para o Obelisco. Robert estendeu a jaqueta no chão e eles se sentaram. O céu agora queimava em tons vibrantes de laranja e rosa. O sol começava a surgir atrás das árvores.
Mariana encostou a cabeça no ombro dele. Nenhum dos dois falava.
Foi Robert quem quebrou o silêncio.
— Eu não vou embora.
Mariana ergueu a cabeça rapidamente, os olhos arregalados.
— O quê?
— Eu não vou voltar para Nova York — continuou ele, olhando para o horizonte. Sua voz estava firme, mas emocionada. — Ontem à noite, enquanto você dormia, eu percebi que nada lá importa mais. Nem o cargo, nem o salário, nem a carreira que construí por quinze anos. Nada disso vale a pena se eu te perder. Eu prefiro pedir demissão, ficar no Brasil, aprender português direito, vender hambúrguer se for preciso… do que viver sem você.

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