"Dante"
Geralmente o som sibilante das turbinas do jatinho corporativo cruzando o céu noturno do Atlântico não me incomodava. No entanto, dessa vez, o confinamento do avião parecia o próprio purgatório. Eu encarava a tela do meu celular, roçando o polegar nela, onde estava aberta a última foto da Valentina que eu tirei essa manhã enquanto ela olhava para a sacada do quarto, banhada pelo brilho do sol, usando apenas uma das minhas camisas. Eu senti o meu peito se apertar dolorosamente, com uma ansiedade que os negócios nunca haviam me causado.
Eu estava viajando sozinho, o que tornava o tempo ainda mais excruciante. Sem o Murilo para me distrair com as suas habituais ironias aquela cabine parecia de uma monotonia irritante. Mas o que me incomodava mesmo era não ter a Valentina por perto, não sentir o cheiro dela de amêndoas doces e cacau.
Eu olhei para a minha mão segurando o celular, ela estava perfeitamente firme. Eu não pude deixar de pensar na coincidência que foi os meus sintomas sumirem depois que a Valentina passou a cuidar da minha alimentação. E me impressionava todos os sintomas que me atormentaram por meses terem simplesmente desaparecido. Mas eu ainda receava que eles voltassem piores e o meu temor era mais pela Valentina do que por mim mesmo. Lembrar do choro dela, dizendo que não estava pronta para me perder, deixava o meu coração em desordem.
- Valentina, o que você está fazendo comigo? Me fazendo atravessar o Atlântico atrás de uma faísca de esperança. Logo eu. - Eu resmunguei para mim mesmo.
Eu costumava ser um homem prático, que tomava decisões com os pés no chão, sem considerar... sentimentos. Mas desde que a minha Encrenca invadiu a minha sala, eu me pego pensando frequentemente nos sentimentos dela, como não magoá-la, como deixá-la feliz, o quanto eu odeio vê-la chorando, o quanto eu gostaria de não precisar... morrer! Tudo por ela, cada decisão que eu tomava agora era por ela, pensando na felicidade dela.
E agora, possivelmente nós tínhamos um bebê a caminho e a realização daquele implante me desestabilizou ainda mais. Eu não pensei que seria assim. Eu pensava muito na paternidade, pensava no quanto eu gostaria de ser um pai tão bom quanto foi o meu, pensava em tudo que queria ensinar para o meu filho. Mas eu não pensei que a realidade de estar a caminho de ter um filho fosse me emocionar tanto. Eu havia dito a Valentina que aquele bebê era a blindagem do meu patrimônio, mas essa havia sido a maior mentira que eu já contei. Aquele bebê era o meu maior voto de vida, parte de mim que eu queria desesperadamente ver crescer.
E era por tudo isso que eu estava dentro desse avião. Eu precisava daquela segunda opinião de Boston. Eu precisava que a junta médica de Massachusetts tivesse algo que me mantivesse vivo. Eu queria driblar a morte só para poder ter muitos amanheceres ao lado da Valentina.
Ainda era madrugada quando o jatinho finalmente tocou a pista particular do aeroporto internacional de Boston. Eu fui para o hotel que havia reservado, mas a cama era grande demais sem a Valentina. Eu ri, pensando no quanto isso era ridículo, eu estava me transformando num cachorrinho carente e dependente dela. Eu desisti de dormir, não prendia a minha atenção a nada na televisão, então eu abri o computador e comecei a trabalhar, até que os primeiros raios de luz da manhã atravessaram os vidros da janela. Estava na hora de me preparar para o negócio mais importante da minha vida.
Às oito horas da manhã em ponto, eu cruzei as portas de vidro fosco do Hospital Geral de Massachusetts. Eu fui conduzido direto para a antessala da diretoria clínica. O chefe de neurologia do hospital, o Dr. Jonathan Vance, me aguardava de jaleco branco com o tablet corporativo aberto na mesa, exibindo as imagens digitais do meu cérebro que o Murilo havia enviado na semana anterior.
O Dr. Jonathan Vance era o tipo mais comum de ser humano, estatura mediana, compleição física mediana, corte de cabelo comum, sem barba, olhos escuros escondidos pelas lentes de grau dos óculos de armação preta. Nada nele chamaria a atenção ou indicaria que ele era um dos neurologistas mais respeitados do mundo.


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