"Valentina"
De acordo com o Murilo e a Tati, o meu exterior tinha que refletir o meu interior, uma mulher prática, de caráter inabalável e sempre pronta a assumir responsabilidades, mas priorizando o afeto familiar. Em outras palavras, eu deveria trocar de roupa. A Tati me ajudou a escolher uma calça de alfaiataria preta de corte reto e um suéter de tricô de gola alta em um tom off-white, finalizando com sapatilhas simples. Era suficiente para o que a internet queria ver. Nós descemos os degraus e encontramos o Murilo no hall. Ele assobiou baixinho ao avaliar o meu visual sóbrio.
- O departamento de relações públicas agradece o bom tom do figurino, Valentina. Embora eu prefira aquele jeans preto e a jaqueta de couro do primeiro dia. - O Murilo debochou com o seu habitual sorriso cínico.
- Nãããoo. Aquele visual é rock demais para um tribunal virtual. - Eu brinquei, tentando aliviar o peso que eu sentia no peito. - Você tem alguma notícia do Dante, Murilo? Eu preciso falar com ele.
- Ele ligou. Tentou falar com você, mas seu celular ficou sobre a mesa. - Ele ergueu o meu aparelho e me entregou. - Ele queria largar tudo e voltar. Está preocupado com você. Mas eu disse para ele que eu serei o herói do dia.
- Eu queria muito que ele estivesse aqui. - Eu confessei.
- Eu sei, mas o que ele está fazendo é importante, Valentina. Ele precisa terminar. - O Murilo me encarou e pensou um pouco, antes de falar. - Vai ser tumultuado sair daqui, Valentina. Será como estar na selva. Então, abaixe o rosto, não abra os vidros e só fale quando o carro estiver longe do tumulto e dentro da clínica, mas não esquece que lá tem gente demais. Seja calma e suave e nós vamos sair inteiros disso. Isso serve para você também, Tatiana.
- Calma e suave. - A Tati repetiu com a voz mais doce possível e fez um pliê, me arrancando um riso curto. - Coloca esses óculos escuros maravilhosos na ca'ra, Tina! Vamos, a vovó nos espera!
O Murilo não mentiu, sair da mansão foi como cair numa selva e ser atacados. As pessoas se aproximaram do carro, bateram no vidro e dispararam flashes contra o vidro escuro. Foi opressor. E depois disso, o trajeto no banco de trás do carro correu sob uma pressão silenciosa e agoniante. No portão da clínica o tumulto era o mesmo da mansão. Eu olhei para o Murilo nervosa.
- O que eles estão fazendo aqui? Como descobriram a minha avó aqui, Dornelles? - Eu perguntei irritada assim que o carro atravessou o amontoado de repórteres e o portão do Residencial se fechou atrás de nós.
- Não tenho ideia, Tininha, mas vou descobrir. Só tente fingir que é uma pessoa calma, não esquece. - Ele deu um leve aperto na minha mão.
- A porra da calma e do suave, eu já sei. Que caralho, eu só queria arrancar a língua da galinha da Agatha, mas não, tenho que entubar e ser a porra da calma e do suave. Que merda! - Eu disparei e o Murilo deu uma risadinha.
Eu desci do carro, respirei fundo e ergui levemente os cantos dos lábios, cumprimentando docemente o funcionário da clínica que veio nos receber. Eu era a personificação da calma e da suavidade, pelo menos por fora, porque por dentro eu era um terremoto inteiro. Mas ali naquele lugar, eu tinha uma preocupação maior, eu precisava amparar a fragilidade da minha avó e acalmar o seu coração que devia estar magoado depois daquela baixaria da Agatha.

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