"Valentina"
O Murilo Dornelles continuava com os olhos vidrados na tela do smartphone da D. Consuelo, ele se sentou ao lado da simpática senhora e o seu polegar rolava pelos comentários, o seu semblante assumiu aquela seriedade profissional e eu me preocupei ainda mais que a boa intenção da minha avó e dos seus amigos causasse mais problemas ao invés de ajudar, embora eu estivesse orgulhosa da minha avó. O vídeo da Vó Isabel havia se tornado uma bomba incontrolável em menos de vinte minutos e agitou ainda mais a internet, com as pessoas se dividindo entre apoiar a minha avó ou chamá-la de "velha demente", o que me deixava morrendo de raiva.
E enquanto a Tati comemorava e enchia a minha avó de elogios, o meu estômago despencava em desespero. O Dante ia me matar. Ele odiava escândalos e agora estava no centro de um bem grande.
Eu ia puxar o celular da mão do Murilo para implorar que ele usasse o departamento de tecnologia da empresa para tirar aquilo da internet e o departamento de relações públicas para emitir uma nota, mas aí ele abriu um sorriso de orelha a orelha.
- Isso é mil vezes melhor do que qualquer nota oficial que o meu departamento de relações públicas pudesse redigir, Valentina! - O Murilo declarou como se lesse a minha mente. - Já enviei o vídeo para o jurídico da holding e o chefe de relações públicas, eles vão juntar com o material que já prepararam e disparar para a imprensa. - A tentativa ridícula da sua prima de te constranger e abalar vai se virar contra ela. A opinião pública vai massacrá-la.
Eu me joguei na poltrona ao lado da minha avó, eu ainda não estava totalmente aliviada, só ficaria depois de falar com o Dante, mas eu estava orgulhosa da minha avó e grata pela força dela e por ela ter me ajudado. A puxei para um abraço apertado, sentindo as lágrimas de emoção rolarem pelo meu rosto.
- De tudo isso, vó, o que me deixa feliz é te ver assim, tão cheia de vida. - Eu falei para ela.
- É porque agora eu estou cercada de cuidado e amor, Tininha. O amor salva a gente, sabia?! Eu tenho você, o meu neto, a Tati, o Pudinzinho, todos os meus novos amigos e essas moças e moços que trabalham aqui e são tão amáveis. Eu tenho certeza que logo eu vou ter o meu bisnetinho também. Até uma planta floresce quando recebe amor e cuidado, Tininha.
- Mas eu não quero que a senhora fique lendo os comentários, porque tem gente que não entende e fala coisas feias. - Eu pedi, mas ela deu uma gargalhada.
- São os haters, minha filha. Eu não ligo para eles. - Ela se afastou com os olhos brilhantes. - Tininha, essa sempre foi a fórmula do sucesso: "falem mal, mas falem de mim"!
Eu não contive uma gargalhada alta e um sentimento bom de pura alegria percorreu o meu corpo. Uma a uma eu abracei e agradeci cada uma daquelas pessoas que apoiaram a minha avó e se meteram naquela loucura de gravar um vídeo para me ajudar. Eu havia ganhado um exército de escudeiros no Residencial Sereno. Mas aquele momento de alívio não durou muito.
A diretora do Residencial entrou apressada na sala de convivência. A mulher, que minutos antes exalava a elegância impecável de uma diplomata, estava com o semblante pálido e claramente agitada.
- Sra. Montenegro! Dr. Dornelles! Peço desculpas, parece que hoje é o meu dia de lhes dar notícias difíceis, mas nós estamos com um problema no portão de entrada! - A diretora informou nervosa, o que me fez estremecer. - Há um homem no portão, ele se identificou como o filho da D. Isabel, o Sr. Aroldo Camargo. Ele exige ver a D. Isabel agora mesmo.
Senti o meu corpo tencionar e o meu coração bater em uma velocidade absurda no meu peito. Isso estava indo longe demais.

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