"Dante"
No início da tarde eu estava finalmente de volta ao jatinho. Conseguir a autorização para um vôo de emergência levou muito tempo e o uso de vários contatos meus. Mas eu havia conseguido.
Preso naquele avião, eu comecei a pensar. Eu estava dividido entre a fúria por ter passado meses pensando que ia morrer e a felicidade de saber que eu teria uma vida inteira com a minha Encrenca. Eu poderia tê-la completamente, eu poderia me perder nas suas curvas. Eu estava vivo. E saudável. O diagnóstico de glioma terminal agressivo inoperável era falso. Mas o que eu não entendia era como aquele diagnóstico falso foi elaborado. E o rastro de ansiolíticos no meu organismo? Qual dos abutres estava me drogando? Eu tinha muitas coisas para descobrir.
Mas o que me fez perder o fôlego entre as nuvens foi a realização monumental de que a Valentina, que invadiu o meu mundo, havia salvado a minha vida sem nem mesmo saber, ela apenas intuiu e agiu, eliminando a fonte que contaminava o meu corpo. E quanto mais eu pensava, mais certeza eu tinha de que o remédio era colocado no suco verde de antes. Ao gerenciar pessoalmente a minha alimentação nas últimas semanas, a Valentina impediu que me administrassem mais toxinas e permitiu que o meu organismo se livrasse da droga. Tudo por ela.
Assim que as rodas do jatinho tocaram a pista particular do aeroporto, o meu celular voltou a funcionar e as notificações começaram a entrar como se uma tragédia tivesse acontecido. Eu marchei a passos rápidos em direção ao sedã que me aguardava e assim que me acomodei no banco de trás comecei a rolar as mensagens na tela, que começou a queimar em chamas com as atualizações que o Murilo havia me enviado.
Eu pulei os relatórios sobre a holding e dei uma olhada rápida na situação controlada do massacre da internet e como a Valentina tinha dominado a situação com altivez e inteligência. Um orgulho inabalável me dominou e eu dei um pequeno sorriso. No entanto, a última mensagem de texto do meu amigo foi como um soco no estômago.
O Murilo descrevia a fúria da Valentina à tarde ao descobrir que o novo estúdio de dança estava incluído como um empreendimento da holding. A mensagem dava margem para pensar: “Dante, a sua Encrenca está espumando de raiva por achar que é apenas a administradora de um empreendimento da holding e não a dona do estúdio. Ela está irritada e quer desfazer tudo.” Eu reli a mensagem tentando entender o que tinha acontecido. O que a Valentina queria desfazer? Por que ela estava com raiva? Eu estava colocando tudo o que eu tinha nas mãos dela, por que ela pensava que era só uma administradora?
Eu fiquei paralisado, apertando o celular na mão. O medo de perder a Valentina por causa de uma bobagem me atingiu em cheio. Eu não podia perdê-la, não agora... nem nunca! Eu girei a cabeça e refiz os meus planos em um milésimo de segundo.
- Mude a rota imediatamente. - Eu falei para o motorista com a voz tensa. - Nós vamos para o apartamento do Murilo Dornelles. E rápido!
Alguns minutos depois, eu cruzava a portaria do condomínio de luxo e saía do elevador na cobertura do meu amigo sem qualquer polidez habitual. Eu não precisava ser anunciado e eu tinha a senha do elevador. O Murilo abriu a porta vestindo apenas uma calça de pijama e segurando um copo de uísque.
- Dante?! O que você está fazendo aqui? O que aconteceu em Boston? Não me diga que o médico... não importa, nós vamos continuar procurando. - O Murilo declarou atônito, dando passos para trás enquanto eu entrava.
- Tudo transcorreu perfeitamente em Boston, Murilo. Eu não vou morrer. - Eu declarei de forma direta e apressada. - Eu nunca tive um tumor. E eu estava sendo drogado com remédios de forma lenta e contínua para forçar os sintomas neurológicos!
O Murilo arregalou os olhos. Eu podia ver as milhares de perguntas rolando nos olhos dele. Ele desabou na poltrona com o rosto pálido e a expressão de quem acabava de levar um soco de realidade.
- Drogado lentamente? Nunca teve um tumor... - O Murilo gaguejou, um vinco surgindo na testa dele. - Meu Deus, Dante… isso significa que alguém está tentando te matar! Dante, nós precisamos ir à polícia agora.


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