"Valentina"
Por um segundo eu me diverti com o medo do Murilo, mas eu entendia a preocupação. O Sr. Malta é daqueles que vai beliscando pelas beiradas, envolvendo a pessoa na conversa e a deixando muito à vontade, a ponto de, quando se dá conta, já se falou demais. Pessoas assim são deliciosas para se conversar, mas um perigo para quem tem o que esconder. E eu tinha.
- Eu disse a ele que o seu amigo e eu travamos uma longa disputa por um edifício que ele derrubou e que entre uma briga e outra nós acabamos nos envolvendo. - Eu resolvi tirar o Murilo do sofrimento. - Eu também disse que a saúde do Dante anda ótima depois que eu passei a supervisionar as refeições dele e que o problema era justamente ele não se preocupar em se alimentar corretamente porque respira essa empresa. Já sobre mim e sobre o escândalo da semana, eu disse a verdade, que a minha prima e eu nunca nos demos bem e que os pais dela sempre me trataram como um fardo. - Eu expliquei e vi o Murilo soltar o ar devagar.
- Valentina, o Malta é um homem de negócios, tem uma ótima relação com o Dante, mas não aceitaria que nada ameaçasse a estabilidade da holding. Temos que ter cuidado com o que falamos.
- Dornelles, eu fui criada pela família satã, eu sei ler as pessoas e sabia exatamente o que o Sr. Malta queria. Ele queria confirmar se o Dante realmente está doente e se o meu casamento é de verdade. - Eu encarei o Murilo. - Você não precisa se preocupar, eu disse ao Sr. Malta tudo o que ele deve saber. O Dante foi claro comigo, Dornelles, eu só posso confiar em você, então eu só confio em você! E no Dante, mas isso eu vou reavaliar porque eu ainda não sei que raios aquele puto está fazendo em outro país que não consegue me mandar a porra de uma mensagem para dizer que está vivo.
- Tininha, você disse que confia em mim, então não se preocupe, aquele puto só tem olhos para você. - O Murilo disse rindo. - E do jeito que ele é, deve estar adiantando todas as reuniões para poder voltar antes. Talvez por isso não tenha ligado.
- Porra, Murilo, mas nem uma mensagem? - Eu resmunguei.
- Quer saber, vamos trabalhar, assim você para de choramingar pelo seu marido. - O Murilo sugeriu e abriu a pasta sobre a mesa.
O relógio do meu celular já marcava a tarde de quinta-feira. E nada do Dante dar notícia. Quase três dias inteiros sem que o mauricinho se dignasse a enviar um "oi" numa mensagem de texto para pelo menos saber se o embrião da fertilização ainda estava fixado no meu útero. Como eu ia ter um filho com um homem que sumia? Típico caso do "vou ali comprar cigarro" e volta vinte anos depois quando os filhos já estão criados.
Com o passar das horas o meu humor azedou completamente. Toda a minha determinação de não deixar o sumiço do Dante estragar o meu dia quando eu coloquei o terno vermelho essa manhã tinha ido pelo ralo e eu estava outra vez cuspindo marimbondos.
- Valentina, se você continuar estalando a língua desse jeito e encarando a tela do celular como se fosse dar um tiro nela, eu vou ser obrigado a pedir para o meu médico vir aqui e te dar um ansiolítico tarja preta. - O Murilo ironizou.
- Não enche o saco, Dornelles! - Eu bufei, batendo o celular sobre a mesa com uma força um pouco excessiva. - O seu chefe é um robô executivo sem coração. Mas ele vai me pagar. E quer saber, vamos focar no que realmente importa. Anda, tira a bunda da cadeira, vamos lá para o meu estúdio. Eu preciso entrevistar os candidatos para a seleção de pessoal.
- Eu estou incluído nisso? - Ele me olhou surpreso.
- Só se você quiser ver a Morena exibindo todo o seu charme na barra de poledance. - Eu sugeri e ele ficou de pé mais do que depressa. Eu queria o Murilo agarrado em mim só pra saber se o Dante estava ligando para ele às escondidas.
Menos de uma hora depois, o Murilo, a Tati, os seguranças e eu estávamos no estúdio, organizando tudo para receber os candidatos e eles não se atrasaram. Ao longo das duas horas seguintes tipos completamente diferentes e despojados entraram no estúdio, ficando de queixo caído com a estrutura e dando o seu melhor para conseguir a vaga. Entrou um instrutor de jazz funk vestindo calças largas de moletom que faziam o Murilo arregalar os olhos atônito; a candidata a professora de chair dance de salto agulha que deu um show de sensualidade numa pequena exibição, fazendo a Tati dar um tapa na cabeça do Murilo; e até um especialista em tecido acrobático que insistiu que poderia dormir no trabalho, pra quê eu não sabia.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Último Desejo: a dançarina e o bilionário terminal