"Dante"
Suportar a mesa de café da manhã com a Aurélia, o Otto e o Breno torcendo os narizes para a Valentina era irritante e me fez arrepender de ter encerrado a minha sessão de beijos matinais com a Valentina. Mas eu precisava descobrir logo qual dos abutres estava me envenenando e para isso eu precisava colocar o meu plano em prática.
No entanto, a Aurélia parecia particularmente animada para destilar o seu veneno dissimulado, sentindo-se segura por estar ladeada pelo palhaço do Breno e pelo meu primo adulador.
- D. Marta, o novo suco funcional do Dante chegou? - A Valentina, agindo com a sua responsabilidade prática e cumprindo a promessa de me ajudar, cobrou a bebida da governanta.
- Sim, Valentina, eu vou buscar imediatamente. - A governanta respondeu e se retirou.
A Aurélia ajeitou um fio de cabelo imaginário fora do lugar e, com uma postura impecável, ostentou um meio sorriso cínico antes de soltar uma alfinetada venenosa e irritante contra a Valentina.
- Ora, dançarina… parece que o seu maravilhoso cardápio especial e a sua comida saudável não agradaram o paladar refinado do meu enteado por muito tempo. - A Aurélia zombou, dando um gole lento no café. - Não se ofenda, o meu enteado é muito exigente, se cansa rápido de coisas... comuns e simplórias. - As palavras da Aurélia estavam carregadas de indiretas desagradáveis que me fizeram deixar o garfo sobre o prato e encará-la com desgosto.
- O que é, perua? Quer me dizer alguma coisa e não tem coragem? Está com medo que a simplória estrague o seu botox? - A Valentina perguntou com uma nítida irritação.
- Ora, dançarina, eu não tenho culpa se o meu enteado já está se cansando da aventura na baixa renda. Ou você não percebe que o fato de ele ter voltado a tomar as garrafas de suco funcional daquele empório caríssimo prova que a sofisticação Montenegro sempre engole o vulgar?! Vou te dar um conselho de mulher para mulher. - A Aurélia se debruçou sobre a mesa para falar com a Valentina. - Se prepare para voltar para a lata de lixo de onde você saiu. Ele já está se cansando.
Eu notei o corpo da Valentina tremer de puro ódio, mas ela manteve o queixo erguido diante do insulto. Era tudo o que eu não precisava, da Aurélia destilando veneno e infiltrando dúvidas na cabeça da Valentina. Eu apertei a mão da minha esposa por baixo da mesa, oferecendo-lhe um sorriso de apoio.
- Sabe, perua, eu não caio nesse seu joguinho, porque eu sei o que o Dante e eu temos. - A Valentina respondeu depois de um momento com uma segurança inquestionável, mas o fato dela ter precisado pensar na resposta, me deixou preocupado. - E quer saber o que mais? Eu sei porque você não me suporta.
- Ah, mas isso todo mundo sabe. Eu não a suporto porque você é uma pobretona, brega, vulgar e escandalosa.

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