"Valentina"
Nós deixamos o Otto e a Agatha para trás, ruminando o veneno deles e o sermão da vovó, e avançamos de braços dados em direção à mesa principal do salão, bem na frente, em posição de destaque. O Dante e o Murilo disputaram rindo quem ajudava a acomodar a Vó Isabel na confortável cadeira de veludo marfim, com a enfermeira particular ao lado dela com o rosto vermelho como um pimentão. Eles estavam cobrindo a vovó de mimos e atenção, garantindo que o desconforto causado pela Agatha não estragasse a festa dela.
Depois de acomodar a Vó Isabel, o Dante gentilmente puxou a cadeira para mim, me deu um beijo no rosto quando eu me sentei e se sentou ao meu lado. Porém, assim que nós nos sentamos, os convidados pareceram ter feito uma fila para marchar na nossa direção.
Vários empresários, acionistas da holding e diretores das Indústrias Montenegro se aproximavam em fila para saudar o CEO, mas os olhos de todos eles paravam em mim com clara admiração. O Dante, estufando o peito e sorrindo satisfeito, me apresentava a cada um deles com um orgulho inabalável: “Esta é a Sra. Montenegro, a minha esposa”. Ouvir aquilo na voz grave dele derretia o meu estômago. Eu me sentia a mulher mais deslumbrante daquele lugar.
Todas as pessoas foram gentis e simpáticas, não houve um comentário minimamente desagradável e ninguém tocou no assunto do escândalo provocado pela minha família com aqueles vídeos mentirosos. Eu me mantinha plena, de queixo erguido e tratando todas aquelas pessoas como iguais, eu não me senti inferior ou deslocada como havia pensado que seria. Algumas mulheres reconheceram a Vó Isabel da internet e se aproximaram para falar com ela e demonstrar apoio. A minha avó era uma sensação!
A procissão de cumprimentos e apresentações foi interrompida às vinte e uma horas em ponto, quando o mestre de cerimônias anunciou o início das atividades protocolares, começando pelo discurso do anfitrião que abriria oficialmente o baile.
O Dante foi chamado ao palco. Eu ajeitei a sua gravata borboleta preta e dei um selinho na sua boca, mas ao invés de marchar sozinho, ele estendeu a mão na minha direção e fixou os seus olhos nos meus.
- Eu quero a minha esposa ao meu lado na tribuna, Valentina… - O Dante sussurrou no meu ouvido com uma determinação sedutora que me fez flutuar.
Subi os degraus do palco ao lado do meu marido, sob os aplausos ruidosos de todos os convidados, ou quase todos. Fiquei posicionada logo atrás dele. Quando o Dante começou a falar ao microfone, eu senti uma onda de emoção. Diferente do que eu esperava, ele não fez um relatório de dados ou um discurso frio sobre verba para caridade; a sua fala foi carregada por um altruísmo, um amor e uma sensibilidade profundas ao honrar a memória da sua mãe, explicando que aquele Baile Beneficente ia além de financiar pesquisas celulares e tratamentos oncológicos de ponta para quem precisasse, aquele baile sustentava um projeto que dava às pessoas esperança e tempo para estar com aqueles que amavam. Olhei para ele no púlpito, sentindo o meu coração se encher de esperança porque ele estava disposto a lutar para viver ao meu lado. Eu engoli o choro e com a ponta dos dedos sequei os cantos dos olhos, completamente apaixonada por aquele mauricinho que se fazia de durão, mas tinha um coração gentil e generoso.
- Senhoras e senhores, obrigado pela presença, são vocês que tornam possível que tantas pessoas possam ter esperança e tempo. Por isso eu peço que sejam generosos esta noite, que seus corações se encham de esperança e da felicidade de terem tempo com os seus, assim como o meu coração está transbordando por ter encontrado a minha Valentina a tempo e ter a esperança de desfrutar uma vida inteira ao lado dela. - Ele concluiu assim o discurso e se virou para mim, me dando um beijo que me fez derreter em seus braços.

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