"Valentina"
O carro se afastava da clínica de fertilidade, mas a irritação e a frustração que azedavam o meu humor continuavam a ferver sob a minha pele. Eu queria gritar e so'car alguma coisa e na minha cabeça eu estava correndo e gritando. Na minha cabela eu estava correndo atrás do médico e gritando com ele!
Aquele "quase" que parecia ter se tornado a minha vida tinha um peso sufocante. Eu estava quase inaugurando o estúdio, quase casada, quase viúva, quase tendo intimidade com o Dante, quase grávida, quase... feliz! Mas o que faltava para o "quase" ser um "finalmente"? Para o estúdio faltava uma data, para o meu casamento faltava o Dante me amar, para a minha viuvez... não, isso não, isso eu não queria. Para a intimidade e o grávida faltava uma longa semana. E para ser feliz? Faltava o Dante se apaixonar por mim!
Mas essa manhã o que fazia a minha cabeça parecer um gongo sendo martelado por um chinesinho sorridente era o quase grávida. Eu estava quase grávida, o embrião parecia quase fixado no meu útero e nós estávamos quase liberados a ter uma relação física. Se eu pudesse ter um orgasmo eu estaria mais calma. No entanto, nem um alívio eu poderia ter. E para liquidar o meu juízo de vez, o Dante permanecia sentado ao meu lado como se nada estivesse acontecendo, ostentando aquele seu sorrisinho que dizia "tenho um segredo" que só servia para deixar a minha irritação ainda maior. Poxa, ele deveria estar chateado, se não porque continuaríamos no zero a zero, pelo menos por causa da quase gravidez que foi ideia dele.
— Se você continuar sorrindo com essa cara de convencido, Montenegro, eu juro que pulo desse carro e vou a pé para a holding! - Eu resmunguei evitando olhar para ele, mas ouvindo aquela risada. Porra, porque até a risada dele era sexy?
Ele me segurou gentilmente e me puxou para perto dele, me dando beijos suaves e falando baixinho comigo.
- Você precisa relaxar, Encrenca. É só uma semana.
- É mais uma semana, Dante! - Eu respondi segurando a minha irritação que já se desmanchava com a atenção dele.
- E eu vou te mimar tanto que você nem vai perceber que ela passou. - Ele garantiu com aquele ar convencido e eu acabei dando um pequeno sorriso e limpando os olhos que estavam marejados desde que saímos da clínica. Foi aí que eu percebi que não estávamos indo para a empresa e pouco depois nós atravessamos os portões do Residencial Sereno.
- Geralmente eu venho à tarde. - Eu comentei sem nem pensar no que estava falando.
- Eu sei, mas eu acho que você precisa um pouco do colinho da vovó. E depois, eu quero te sequestrar pelo resto do dia. - O Dante me encarou com aquele sorriso. É, ele tinha mesmo um segredo.
- Você não vai trabalhar hoje? - Eu o encarei incrédula. - O que está acontecendo, Montenegro? Você está muito relapso com as suas obrigações naquela empresinha! Cansou de brincar de "Banco Imobiliário"?
- Ah, não, eu adoro brincar de "Banco Imobiliário"! - Ele abriu um sorriso grande. - Mas eu também gosto de "Jogo da Vida"! Você me fez lembrar, Encrenca, que tem um mundo incrível do lado de fora da Torre Montenegro e que nós temos outras necessidades além do trabalho. Hoje, nós precisamos de um pouco do carinho da vovó e um pouco de paz. - Ele deu um beijo suave no meu rosto e abriu a porta do carro. - Vem!
- Quando foi que você decidiu isso? - Eu segurei a mão dele e saí do carro.
- Quando você olhou para o Dr. Salvador como uma assassina psicopata. - Ele riu. - Você assustou o homem.

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