"Otto"
O tilintar irritante das colheres contra as xícaras de porcelana daquela cafeteria de luxo perto do shopping martelava a minha têmpora como se meus olhos fossem se ejetar para fora das órbitas. Eu estava sentado em uma mesa oculta na penumbra dos fundos do estabelecimento, sentindo a raiva dos acontecimentos do fim de semana ferver dentro de mim.
E agora ainda tinha a Agatha! Que arrependimento de ter levado aquela garota no baile, não me serviu de nada e ainda grudou em mim como um carrapato querendo conhecer toda a sociedade do Vale. Acabei bebendo mais do que normalmente bebo para aturar aquela chata.
Mas se tinha uma coisa que eu não deveria ter feito, era levar aquele projeto de patricinha pobretona para um hotel depois da festa. Foi uma burrice ter levado aquela sonsa para a cama. Só faltava agora ela grudar em mim. Porque uma coisa era ficar com ela se ela se tornasse o novo amor do Dante, outra muito diferente era grudar em mim assim, sem mais, nem menos.
E a ligação histérica dela exigindo me ver, me deixou ainda mais nervoso, eu não precisava daquela chata no meu pé. Mas eu só vim encontrá-la para colocá-la em seu lugar. Eu deixaria bem claro que o meu único interesse nela era unir forças para destruir a Valentina.
Eu olhei para a porta no exato momento em que a Agatha Camargo entrava, ajeitando os óculos escuros e com uma cara de desgosto que faria qualquer um achar que ela estava a caminho de um velório. Eu a avaliei enquanto ela vinha em minha direção. Ela não era feia, era só a cópia barata das mulheres com as quais eu estava acostumado a sair, bem magra, cabelos compridos, pintados de loiro e escovados até quase grudarem na cabeça, e sem nenhuma personalidade, as vezes eu pensava que a única coisa para a qual aquela mulher vivia era fazer compras e odiar a Valentina. E comparando as duas, realmente não dava para negar, o meu primo não era cego, a Valentina era bem mais interessante... não seria um plano B ruim ficar com a fortuna e a viúva daquele otário.
A Agatha se sentou na minha frente, ela estava inteira vestida de preto, com uma saia plissada muito curta, blusa de gola alta e manga e... meias três quartos brancas e sapato boneca. Era como se ela tivesse se vestido de colegial para uma festa a fantasia. E nem estava fazendo frio para usar gola alta e mangas, estávamos no verão e era quase hora do almoço. Alguma amiga deveria aconselhar essa mulher a contratar um consultor de imagem e estilo.
Ela se sentou em minha frente, jogou a bolsa sobre a cadeira ao lado e tirou os óculos, revelando a maquiagem pesada. Me encarou e chamou a garçonete, pediu um café elaborado e um cupcake e só depois que a garçonete a serviu, ela começou a falar.
- Aquilo no sábado foi um desastre! - Ela disparou. - Você não fez nada para me ajudar a me aproximar do seu primo. Eu preciso te lembrar que nós temos um trato, Otto? E a minha avó, o que a velha estava fazendo naquela festa chiquérrima? Ela saiu em todas as colunas sociais e não tem nem uma foto minha na imprensa, Otto! Por que? Nós tiramos várias juntos.
- A sua avó é uma mulher bastante elegante. - Eu declarei, mas a Agatha parecia disposta a desenvolver um monólogo e não me deixou prosseguir.
- Elegante? A velha está gaga! Ai, que ódio! A minha mãe está arrasada porque até a minha avó foi nessa festa e ela não. E a Valentina? Naquele vestido dourado, maravilhoso, um exclusivo do Pierre Legrand, coberta de joias. Você deveria ter me comprado um vestido exclusivo, Otto!

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Último Desejo: a dançarina e o bilionário terminal