"Valentina"
A casa estava aberta, mas eu não via ninguém por ali. Eu olhei em volta e fiquei ainda mais embasbacada com aquele lugar. Era tudo num estilo rústico chique. Sala ampla, vigas de madeira aparente no teto, móveis de madeira rústica, mas tudo brilhava de luxo e muito dinheiro.
O Dante fechou as portas nos isolando do resto do mundo enquanto eu analisava a sala com seus longos sofás e cadeiras macias, mas o que me tirou o fôlego mesmo foi uma enorme tela pintada a óleo que ocupava em destaque uma boa parte da parede. Então eu tive a impressão de que todo o ambiente havia sido decorado refletindo as cores outonais da tela, para combinar com o quadro e não que o quadro havia sido posto ali para combinar com o ambiente.
Era como uma aquarela em tons marrons, vermelhos, dourados e brancos. Um cavalo castanho no centro, detalhado, correndo por um campo de flores brancas e capins dourados como se fosse pular da tela. Mais ao fundo a esquerda dele, uma árvore que parecia viver o outono com as folhas já amareladas e avermelhadas já começando a se desprender dos galhos e ao fundo as montanhas e um pôr do sol arrebatador. Era como se aquela pintura estivesse viva e o cavalo fosse saltar em minha direção, como se ele olhasse diretamente para mim.
- Gostou? - O Dante parou ao meu lado, passando a mão pela minha cintura.
- É lindo! Eu não entendo porque ele está aqui e não na sua casa... quer dizer, tem o lance do cavalo aqui, mas... nossa, eu olharia para ele todos os dias por horas inteiras. Eu sinto como se ele conversasse comigo. - Eu confessei ainda observando cada pequeno detalhe daquela tela. E tinha tantos detalhes, tantas cores naquela tela e ao mesmo tempo ela era inteiramente dominada pelo cavalo e a árvore.
- Ele está aqui porque eu não quero que a Aurélia o destrua. Ele ficava no meu escritório na holding. Quando eu namorava a Carmela, ela me disse para guardá-lo, que era ultrapassado, conservador e comercial demais, não tinha classe. Eu o trouxe para cá, aqui ele está seguro de quem não o entende. E parece que você o entende. - O Dante deu um suspiro profundo e melancólico.
- Ah, tinha que ter dedo da Carmela e da Aurélia nisso. - Eu bufei. - Ele é perfeito! Parece vivo... eu olho e sinto como se houvesse uma ligação entre o cavalo e a árvore, como se eles fossem parte um do outro... é de tirar o fôlego!
- O cavalo e a árvore realmente são parte um do outro. - O Dante revelou e eu imaginei que ele fosse usar toda a sua cultura para me dar uma aula de arte, mas eu não o interrompi. - Foi uma das últimas telas que a minha mãe pintou. Ela pintou para mim, quando descobriu que... o tempo dela estava se esgotando. Ela me disse que eu tinha a força e a resiliência de um cavalo, que eu tinha um instinto de adaptação... ela disse que o cavalo me representava e ela era a árvore perdendo as folhas no outono, que ela estava perdendo as folhas, mas que se eu me perdesse era só olhar para trás e ela sempre me guiaria no caminho de volta. - Ele ergueu a mão e tocou de leve o nome assinado na parte de baixo da tela.
- Isso é lindo! - Eu revelei, sem me importar com as lágrimas que caíam dos meus olhos.
- Eu havia me esquecido. - Ele continuou falando. - Eu me esqueci de olhar para trás. Você me fez lembrar, com a sua insistência de que eu precisava buscar uma segunda opinião e toda essa sua luta para não desistir. Ela era assim, sempre tinha esperança... ela lutou... até o último suspiro, ela lutou. Ela teria amado você! Nossa! - Ele abriu um sorriso dividido entre a saudade e o entusiasmo e se virou para mim. - Ah, não... não chora, Encrenca! - Ele passou as costas dos dedos pelo meu rosto.
- É muito lindo tudo isso que você disse. E eu teria amado a sua mãe! - Eu falei com absoluta sinceridade e ele me abraçou.
- Você tem um coração cheio de amor, não é, Valentina?! Você tem esse dom de encantar as pessoas e se doar por elas. E lutar por elas. Eu amo isso em você! - Ele declarou e eu senti o meu coração vibrar por saber que ele amava algo em mim. - Agora vem, eu vou te alimentar. Depois eu te mostro o resto da casa e se você quiser, podemos passear por aí ou só relaxar pela casa.

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