"Valentina"
Eu não estava preparada para deixar a casa do Haras Montenegro essa manhã por vários motivos e um deles era o fato da calça jeans do Dante continuar bem firme à sua cintura. Mas, principalmente, nós estávamos voltando para a mansão, o covil das hienas famintas esperando só por uma distração nossa para atacar.
O Dante manteve o seu braço firme ao redor dos meus ombros durante todo o trajeto de volta, depositando beijos suaves na minha têmpora e fazendo planos para a semana.
- Nós podemos voltar quando você quiser. - O Dante falou no meu ouvido.
- Eu preferia não ter saído de lá! - Eu respondi manhosa e ele riu, me apertando no seu abraço.
No entanto, assim que o carro parou em frente a casa, o peso esmagador do império Montenegro pesou sobre os meus ombros e o olhar do Dante voltou a ter aquela tensão de quem está sempre alerta. Ele já não sorria despreocupadamente como sorriu no haras.
Nós entramos abraçados na casa que a essa hora da manhã deveria estar em um silêncio sepulcral, porém, havia um rastro de vozes arrastadas, ruidosas e sussurradas como um rádio chiando, vindas direto da sala de estar principal.
- Se aquela girafa oferecida se enfiou aqui de novo, dessa vez eu vou arrastá-la para fora pelos cabelos. - Eu resmunguei.
- Depois de domingo? Duvido que ela apareça por aqui. - O Dante garantiu.
Eu troquei um olhar de soslaio com o meu marido. Nós nos aproximamos de mansinho, sem fazer nenhum barulho, movidos pela curiosidade e olhamos para dentro da sala. As pessoas ali estavam tão entretidas que não perceberam a nossa chegada.
A Aurélia estava sentada no sofá ao lado do Breno e na poltrona ao lado tinha um homem grisalho, de óculos, que já devia ter seus cinquenta anos. De pé em frente a eles, estava o Otto, que encarava o homem com um olhar ameaçador.
Eu olhei para o Dante, mas ele observava a cena com os olhos estreitos, prestando atenção ao que acontecia dentro da sala. E foi nesse momento que o homem se inclinou na direção dos outros e nós pudemos escutar perfeitamente o que ele disse em um tom confidencial:
- Isso não é nada bom! Fiquem atentos e evitem o pior ou eu vou contar tudo. - O homem falou e o Dante ficou tenso.
- Ah, que vai contar o quê. Não se esqueça de quem somos e do que você fez! - O Otto falou em tom ameaçador.
O Dante parecia em transe ouvindo aquilo. Mas quem era aquele homem? A sala ficou em silêncio, o Otto e o homem se encarando como se medissem forças. Então o Dante apertou a minha mão e me puxou para dentro da sala com ele. Ele deu um passo firme à frente, limpando a garganta com uma irritação palpável.
- Bom dia! Há alguém doente nesta casa, para que o Dr. Hércules fosse convocado ou é apenas uma visita de cortesia, doutor? - O Dante disparou com o seu tom frio habitual.
Era o tal médico que disse a ele que não havia nada a fazer a não ser morrer. Eu senti uma raiva corroer os meus ossos. Eu já não gostava daquele médico sem conhecê-lo, agora que ele parecia andar de segredinhos com os agregados eu gostava ainda menos.
A Aurélia empalideceu de susto ao nos ver entrar. O Otto Montenegro trincou o maxilar com um ódio nítido, o Breno bufou como o playboy mimado que era e o tal médico deu um meio sorriso presunçoso e convencido, se levantou tentando aparentar normalidade e calma, e nos cumprimentou como se fosse um prazer nos ver.
- Não, não, Dante, é apenas uma visita de cortesia, dado que eu não tenho falado ou visto você ultimamente. - O médico se apressou em explicar. - Aliás, eu vim justamente para vê-lo.

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