"Valentina"
Eu deveria saber, para o Murilo estar naquele estado, só podia ser por causa de alguma das loucuras da Tatiana, e com certeza a loucura do dia era bem pior que uma calça legging e um top amarelo limão no escritório.
- O que a Tatiana aprontou agora, Dornelles? - Eu perguntei tendo a certeza de que a trégua prometida pela Tati não tinha durado nada.
- A minha nova e impossível assistente acha que o escritório é um parque para ela passear! Ela está vestindo um... é azul turquesa e pink neon, Tininha, um... nem sei como chamar aquela roupa... tem um zíper na frente, Tininha, um zíper! Aquilo está quase estourando com os... os... - Ele colocou a mão na frente do peito sinalizando seios e eu tive que conter o sorriso, o Murilo estava desconcertado. - Aquele sutiã termina antes de cobrir pelo menos metade da barriga e deixa aquele maldito piercing visível. Pior ainda, ela resolveu colocar um percing que é um monte de pedrinhas brilhantes enfileiradas e uma flor de pedrinhas brilhantes e mais um monte de pedrinhas enfileiradas! Aquilo nem é mais um letreiro, é um painel de led da Times Square!
- Pensei que você gostasse do piercing? - O Dante perguntou com aquele sorriso sacana.
- Não quando nenhum homem consegue conversar com ela olhando nos olhos. - O Murilo desabafou. - Tininha, me ajuda! Eu já atendi a dez ligações de outros departamentos e todas para me perguntar se a Srta. Santana é comprometida.
- E o que você respondeu? - O Dante estava achando divertido o sofrimento do amigo.
- E isso importa? - O Murilo perguntou, mas o Dante e eu o encaramos. Até eu já estava curiosa. - É óbvio que eu disse que sim, que ela é comprometida e desencorajei fortemente que qualquer um se aproxime porque o cachorro é bravo. A minha sala não é uma agência de namoros!
- Dornelles... - Eu controlei a minha vontade de rir. - A Tati não vai trocar de roupa, eu conheço a peça.
- E o que eu faço? Ela teve coragem, Tininha, de me dizer que veio com uma blusa de mangas compridas hoje para que eu não pense que ela está com frio. Aquilo nem é uma blusa, Tininha! - O Murilo agarrou as minhas mãos e eu tive a impressão de que ele estava a ponto de chorar. - Eu preciso de ajuda. Eu já me desculpei. Achei que estava tudo bem. O que ela quer de mim, Tininha?
- Murilo, vai se resolver com a sua assistente. Não coloca a minha esposa no meio dessa bagunça. - O Dante falou e o Dornelles me olhou suplicante.
- Dornelles, o que você fez? Eu te ajudei ontem e a Tati saiu do restaurante numa boa com você. - Eu queria saber, porque não estava entendendo nada, a Tati não era do tipo que voltava atrás, ela decidia e sustentava a decisão e ela tinha amolecido em relação a ele. O Murilo desviou o olhar.
- Eu... eu a levei para a minha casa. Ela não queria ir. - O Murilo contou.
- E você a levou mesmo assim? Isso é sequestro, sabia?! - Eu perguntei cruzando os braços sobre o peito.
- Éééé... - Ele coçou a cabeça. - Nós somos amigos, Tininha. Eu queria passar mais um tempo com ela, tomar mais um vinho, jogar conversa fora no tapete da sala. A gente tinha acabado de se entender! Juro, minhas intenções eram puras e eu disse isso a ela.
- Puras? Pura sacanagem, não é, Murilo?! Um vinho no tapete da sala? Confessa logo! - O Dante pressionou o amigo que olhou de cara feia para ele.
- Não escuta ele, Tininha! Eu só queria um pouco mais da companhia dela. Eu passo muito tempo sozinho naquele apartamento. - O Murilo suplicou.

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