"Valentina"
A Tatiana e eu nos afastamos da mesa, mas o cachorro continuou sentado na cadeira ao lado do Murilo. Sim, na cadeira, como se realmente fosse um estagiário. Nós nos sentamos no banco sob a árvore em frente ao laguinho, observando a família de patinhos nadando de um lado para o outro.
- Como você está com isso, Tina? - Foi a primeira coisa que a Tati perguntou.
- Eu fiquei putíssima, Tati. Mas o Dante e o Murilo assumiram o controle de tudo e foram me dando as direções. - Eu respirei fundo. - E quer saber? Eu gostei de ter alguém cuidando de tudo pra mim. Alguém que tira o peso dos meus ombros e segura a minha mão. - Eu me virei para a Tatiana com os olhos marejados. - Mas quanto mais o Dante faz essas coisas, quanto mais ele me mostra como é ser amada e cuidada, mais medo eu tenho, Tati. Porque eu penso como vai ser depois, se esse tratamento não der certo... como eu vou sobreviver depois dele, Tati?
- E se você não precisar sobreviver sem ele? E se o tratamento der certo? Como vai ser viver a vida inteira com ele? A vida inteira sendo cuidada? - Ela sorriu. - Tina, ninguém consegue ser feliz se segurando no que pode acontecer de ruim. E o que é a felicidade? Não é como uma estrela cadente? Um breve instante que brilha intensamente num fragmento de tempo e depois segue em frente. Leve, passageira, uma explosão de cores que se revela nas menores delicadezas. Ela não precisa durar para sempre, Tina. Ela precisa durar apenas o suficiente para que você se lembre do gosto dela e possa continuar sorrindo. Enquanto você se segurar no medo, você não vai sentir o gostinho da verdadeira felicidade. E talvez quando você solte o medo seja tarde demais.
Eu respirei fundo. Cada palavra dela estava carregada de significado e me atingiu com a força de um trem desgovernado.
- Parar de pensar no depois. - Eu sorri e olhei para ela que concordou. - Esse curso de psicologia por correspondência até que é bom. - Eu brinquei com ela, porque a Tati era assim, toda maluca, mas dava conselhos como um sábio de cem anos.
- Some a isso a minha coleção de livros de autoajuda, foi neles que eu aprendi a ser uma pessoa melhor. - Ela respondeu com um sorriso travesso. - Deixa o Dante ser o que você precisa. Deixa ele segurar o peso, te cuidar e te amar. Você merece, minha amiga. Merece muito! - Ela passou o braço no meu ombro num abraço desajeitado. - E arranca a calça daquele homem, pelo amor de Deus!
Eu comecei a rir. Só a Tatiana era capaz de dizer a coisa mais linda ou sensata e em seguida falar uma bobagem, acabando com o momento.
- E você, quando vai arrancar a calça do Dornelles? Ou será que o seu objetivo é estourar mesmo esse zíper? Eu notei que ele está mais aberto, Tatiana. Você vai matar esse advogado! - Eu ri.
- Aquele idiota de gravata achou que ia me adestrar, Tina. - A Tati rebateu. - Olha lá, o traidorzinho do Newton já se bandeou para o lado dele e eu sou capaz de apostar que a Vó Isabel está dando dicas pra ele. Droga! E eu levei o cachorro pro escritório só pra irritar o idiota de gravata.
- Eu não duvido nada que a Vó Isabel tenha dado a sua ficha completa pra ele. - Eu ri, conhecia a minha avó muito bem para saber que ela ia tentar desencalhar a neta postiça com o Pudinzinho que ela achava a nona maravilha do mundo, porque a oitava era o Dante. - É sério, Tati, nós somos amigas, o que tá rolando entre você e o Dornelles?
- De novo, Tina? - Ela estalou a língua, mas percebeu que eu não ia me contentar com o seu revirar de olhos desta vez. - Não está rolando nada e nem vai rolar. Eu pensar nele quando uso o meu vibrador é unicamente porque eu reconheço que ele é lindo e gostoso e... droga! Depois que eu senti o volume naquela calça, Tina... me deu um negócio, sabe?!
- Não, Tatiana, não sei, não! - Eu a encarei e cruzei os braços.
- Tina, lá no escritório, antes da gente sair, ele me pegou de um jeito...

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