"Valentina"
No meio da tarde o Dante esfregou os olhos, fechou a pasta com os documentos e me encarou com os olhos focados e sérios. Ele ainda parecia um pouco abatido, como se estivesse prestes a vomitar, mas manteve a sua habitual postura de imperador frio das Indústrias Montenegro.
- O seu treinamento executivo por hoje está suspenso, Valentina. - Ele anunciou lentamente, a voz saindo naquele tom baixo, frio e educado. - Conforme o nosso acordo, nós vamos visitar alguns imóveis comerciais para você escolher um para ser o seu novo estúdio de dança. Quero que você selecione pessoalmente a estrutura ideal para a reabertura do seu negócio.
- Dante, não é melhor você descansar? Nós podemos ver o estúdio depois, você já contratou a Tati e eu tenho que aprender o que eu tenho que fazer para apoiar o Dornelles quando for preciso e tem o negócio da inseminação...
- Encrenca, eu quero ver o seu estúdio reaberto enquanto eu ainda caminho sobre as minhas pernas. - Ele sorriu. - Além do mais eu estou me sentindo bem melhor e sair um pouco pode me fazer bem. Não quero ficar numa cama mais do que o necessário.
- Você está melhor mesmo? - Eu insisti e ele fez que sim.
O meu coração deu uma cambalhota de puro alívio dentro do peito, batendo em um ritmo que eu não saberia explicar. Eu nem me dei ao trabalho de trocar de roupa, apenas peguei a minha bolsa e o segui para fora da mansão, manchando atrás daquele homem de terno com nada mais que um jeans surrado e uma camiseta decotada.
O trajeto no banco de trás do sedã foi cercado por uma atmosfera nova. Não era mais o silêncio tenso do início, era a eletricidade silenciosa de dois aliados que haviam concordado em se proteger mutuamente. O Dante tentava manter os olhos fixos na janela de vidro escuro, sempre fazendo os seus exercícios de respiração pausados, mas o seu olhar escorregava de vez em quando e encontrava o meu.
- O que foi, Dante? - Eu perguntei de repente, pois sabia que tinha algo girando na cabeça dele.
- Nada demais. Só estava pensando que você me prometeu uma performance naquele tubo no meio do hall de entrada de casa, mas até agora eu não vi nada e isso já tem quase um mês. - Ele cobrou com um sorriso de canto que me fez rir alto.
- Quer me ver dançar, Dante Montenegro? - Eu ironizei e o sorriso dele abriu um pouco mais, como um garoto tímido. - Eu não sei se o seu coração aguenta!
- Você é tão boa assim, Sra. Montenegro? - Ele brincou.
- Eu sou irresistível! - Eu dei uma piscadela para ele.
- É, acho que é. - Ele riu e suspirou, sem tirar os olhos de mim. Então eu fiquei séria.
- Sei lá, é que no último mês aconteceu tanta coisa e tem tudo o que eu estou aprendendo, as visitas a minha avó, a preocupação com a fertilização... acho que fugiu da minha mente.
- Você está sobrecarregada?
- Não! Eu estou encarando um mundo novo e pode ser que alguma coisa me escape.

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